Eu estava me preparando para ir criar o texto para o trabalho final de uma matéria, mas estou ouvindo o Clube da Esquina e não tive coragem de parar o álbum na metade. Então me propus relatar os dois sonhos lúcidos que tive nas últimas três semanas. (Não deixa de ser exercício literário!) Esses sonhos são importantes para mim, pois acredito que foram meus primeiros sonhos lúcidos, ou pelo menos, os primeiros que pude detectar. Eu não estava tentando tê-los, mas aparentemente meus hábitos noturnos favoreceram seu surgimento. Na internet uma das técnicas mais simples que encontrei tratava-se de interromper o sono após um intervalo e voltar a dormir enquanto realiza alguns movimentos sutis e repetitivos. No meu caso, acontece que frequentemente acordo para urinar durante a noite, ou acordo de manhã com o despertador e desisto de levantar (quem nunca?).
O primeiro sonho. Nota-se que não percebi que estava tendo um sonho lúcido até a parte final, onde percebe-se que posso ser bastante teimosa. Aliás, ele foi tornando-se mais claramente lúcido (gostei da expressão "claramente lúcido") ao poucos. Eu estava numa versão do Metrô Jabaquara e havia um posto de saúde naquela região e um translado gratuito entre o posto e a estação. Fui sem motivos da estação ao posto e lá esperava a van para voltar, novamente sem ter porquê. Era noite e me lembrava de minha avó (ela não apareceu visivelmente no sonho, mas era como se estive lá o tempo todo). Havia no posto um aparato como aquelas cadeiras de subir montanhas para esquiar e este era branco.
Fui para a rua. Dei-me conta que poderia encher o sonho de amigos e logo haviam várias pessoas conhecidas por perto. Não conversei com nenhum deles, mas invoquei a presença de [...]. Ele apareceu, mas eu não podia controlar seu rosto, era o rosto de outro rapaz. Ficamos de mãos dadas no meio da rua, entre as pessoas passando. Fiquei muito feliz por estarmos juntos. Ele então me disse que estaria sempre por perto, desde que eu o chamasse.
Dessa cena, fui para outra em que estava deitada no meu próprio quarto e me levantava para ir ao banheiro. Já estava prestes a acordar, de forma que me percebia deitada novamente, antes de conseguir urinar. Então a cena se repetia sem que eu chegasse ao banheiro. Percebi que estava dormindo mas que também estava com a bexiga cheia. Fiz um último esforço no sonho para chegar até o banheiro. Nessa parte, os trechos da casa pelos quais passava eram muito detalhados e de acordo com a realidade. Porém quanto mais perto chegava do banheiro, mais a imagem se distorcia (como falhas em um filme de rolo). Lá estava eu de novo em minha cama. Fui então de fato ao banheiro e voltei rapidamente a cama. Demorei alguns segundos para acreditar que dessa vez tinha sido real. Mas não voltei a dormir e minha bexiga estava tranquila.
~~~~~~~~
Antes do segundo sonho eu havia levantado-me, ido a padaria, comido pão e voltado para a cama. Enquanto ainda não estava dormindo, comecei a visualizar (imaginar, e não, ver) uma cabeça feminina na frente de uma paisagem. Ela falava coisas que não entendia, mas resolvi prestar atenção. Era uma espécie de apresentadora, hostess ou interface. (Eu ainda estava acordada).
O segundo sonho. Prólogo: Cheguei a uma casa desconhecida. Havia uma movimentação de pessoas, parentes minhas, deveria estar para acontecer uma festa. Apesar das limitações do sonho, este parecia real, isto é, eu tinha a sensação de estar desperta. Eu soube que podia controlar o que ia acontecer, que aquelas pessoas se comportariam mais como bonecos (ou seja, que elas não poderiam interagir ou brigar comigo). Então resolvi tocar os seios de [...] (não a mesma pessoa [...] do outro sonho). Desejei tocá-los porque ela era mãe, foi o pensamento que me ocorreu. Quando me aproximava dela, seus seios ganhavam cristas, como de galos, ou verrugas, e de fato, quando os toquei eram sacos de pedras. Entendi que nem mesmo em sonho eu ficava livre de restrições, havia em mim uma culpa forte por desejar aquilo.
Lembro-me de depois de vagar pelos cômodos da casa e sentar numa cadeira. Eventualmente decidi sair de lá, "voltar para a realidade comum", foi o que pensei. Pus a mão no encosto de uma cadeira para ajudar a me levantar. Olhei para minha mão no encosto. A imagem estava duplicada, embaçada. Desejei sair mas não sabia como. Senti medo de não voltar. Fui para a cozinha, com esperança que fosse a cozinha da minha casa, mas não era. Não conheço aquele lugar. A imagem voltou a falhar (como um DVD riscado) e acordei sacudindo a cabeça. Fiquei alguns segundos me assegurando de estar em casa e senti muito alívio.
~~~~~~~~
Mais tarde comparei essa possibilidade de sonho lúcido com os desejos que se consegue da lâmpada de um gênio mal. Eventualmente ele realiza seus desejos, mas não de uma forma agradável. Aparace quem você quer, com o rosto de outra pessoa. Você escolhe ir para a cozinha mas é uma cozinha estranha.
Talvez seja útil deixar uma dica, que talvez não sirva muito, mas a realidade "de fato" parece ter contornos mais firmes. Os objetos e pessoas permanecem. Nas realidades de sonho, quando olho fixamente para alguma coisa, ou não vejo detalhadamente ou a coisa se transforma.
E quando a gente não consegue acordar? Isso já aconteceu com vocês?
Um terceiro sonho. Este não foi um sonho lúcido (porém eu soube que estava dormindo), mas sonhei que alucinava. Tem sido um tanto frequente para mim, ano passado e este, ter sonhos em que estou deitada, quase na mesma posição que me deitei, no mesmo lugar em que dormi. Como se eu sonhasse que de repente acordei. Não é raro que esses sonhos tenham um teor sexual forte. Quando percebo que posso estar dormindo, tento me mexer e não consigo (acredito que seja o que chamam de paralisia do sono).
Nesse dia particular, (durante o sonho) eu abria os olhos e via no braço do sofá o rosto de um gato. Fechava os olhos para evitar essa imagem mas ela permanecia lá ao abri-los. Senti medo por estar alucinando, e acredito que foi o medo de alucinar de fato que me trouxe esse sonho. Acho que o som dos ônibus na rua transformou-se, no sonho, num rádio mal sintonizado através do qual um homem me dava instruções em inglês. Fiquei muito aliviada em perceber que não conseguia distinguir as instruções e, portanto, não poderia obedecê-las.
~~~~~~~
Em abril/maio deste ano tive duas alucinações visuais (má-interpretações) enquanto desperta (não próximas de dormir e acordar). Numa delas, eu estava conversando com um amigo mas quando olhei para ele, tinha o rosto de outra pessoa. Fechei os olhos e disse para mim mesma que aquilo não era possível, mas quando olhei novamente, ainda era o rosto errado. Outro dia, estava com esse amigo novamente, olhei para o braço dele, seu braço estava muito menor do que o normal, como se tivesse magicamente diminuído. Fechei os olhos e me pus a convencer-me que aquele era um truque de perspectiva, que na verdade, eu estava olhando para o seu pulso e não para seu cotovelo e que seu braço na verdade era parte de sua mão, a parte visível do meu ponto de vista. Disse tudo isso e abri os olhos, a toa. O braço continuava diminuto. Alguns instantes depois o rapaz o moveu e as coisas voltaram ao normal.
Há alguns dias percebi vozes (não tive a sensação de ouvi-las, eram como pensamentos que eu não tinha pensado), um pouco antes de dormir. Ano passado, passou um carro na rua, a noite, enquanto eu estava deitada para dormir. Eu estava tentando ouvir vozes. O carro passou e o barulho que ele fez se transformou em um gemido. Não tentei ouvir nada desde então (fiquei com muito medo).
sábado, 6 de junho de 2015
quinta-feira, 9 de abril de 2015
Diariabilidade
Alô, boa noite. Primeiro deixa eu ir buscar um aperitivo lá na geladeira. Pensando bem, não sei ser boêmia. Hoje cedo pensei que seria legal se eu cultivasse o hábito de escrever todo dia. Escrever qualquer coisa, apenas para praticar. Tenho já vários temas para desenvolver, digamos, lição de casa. Primeiro, quero resenhar o livro Estrutura das Revoluções Científicas, do Thomas Kuhn, para uma matéria. Também quero escrever sobre virgindade, criatividade, e o olhar de algumas pessoas, e esta frase foi bem mais uma agenda mental do que... o que bem estou escrevendo? Só escrevendo, lembre-se. Mais do que ser criativa e expressar seja lá o que eu gostaria de expressar, preciso adquirir linguagens. O que tenho escrito até aqui está carregado de sentimentos meus e neste instante meus olhos ardem daquele jeito de quando a pessoa está prestes a chorar mais não chora e isso é porque por mais que eu tenha dito o que queria, você não entendeu.
~~~~~
Eu não sou uma pessoa inteira.
~~~~~
Um texto pode ser uma resenha, uma carta, um ensaio, uma dissertação, um e-mail. Um texto de blog. Um texto de blog parece-me mais fácil, mais livre. E escrever a mão ou digitar me impõe intuições de estilo diferentes. Por exemplo, estou digitando como se estivesse conversando com alguém. (Uma conversa informal). É fácil escrever assim, mais me angustio em pensar que não estou escrevendo para nenhuma pessoa específica. Você pode ler e gostar, ou pode não fazer diferença. Não tenho exatamente medo da sua opinião sobre ele. O fato é que ninguém está ai. Eu estou sozinha.
Tem uma banda tocando no meu quarto. Eu não estudo mais música. Meu pulso direito dói. Minha garganta, minhas costas doem. Porque dói não ser nada e se esforçar para ser alguma coisa. De fato, sou uma esponja. A banda me invade, e é bom, eu quero. A vizinha canta e me invade, e é ruim. As pessoas falam ao mesmo tempo, e eu deixo me invadir as vezes, as vezes demais. Eu espero entrar nelas também. Posso introduzir um assunto. Posso reescrever, mas talvez não dê vontade. Vou explicar porque não gosto de estudar. Me faz sentir que não sou suficiente ainda. Sim, sempre há o que se estudar. Estou dizendo suficiente para simplesmente ter direito de existir e ser deixada em paz. Não era esse o assunto. Era 'o olhar de algumas pessoas'.
Não sei o que você chama de paixão. Das coisas terríveis do mundo, uma delas é que eu nunca vou realmente entender como você se sente. É um milagre, eu repito em todo lugar, que duas pessoas se encontrem e conversem, aparentemente, sobre o mesmo assunto. Estou rindo agora porque me lembrei de uma ocasião em que duas amigas conversavam comigo e minha mãe. Eu estava quieta e esperava uma oportunidade de falar. Não sei se não me deram a oportunidade ou se não a reinvindiquei. Eu era jovem. Ri de novo, pois sou jovem. Bem, observava, e eram dois monólogos alternados. Elas queriam falar, ouvir a si mesmas e era só isso. Eu me senti usada. (Mas foi só como me senti, não foi o que elas fizeram comigo).
Ah sim, a paixão. O olhar de paixão de algumas pessoas. Foi assim, há dois anos me apaixonei, do tipo de perder a fome (perdi três quilos numa semana). Altos e baixos, mais baixos que altos foram. Mas esse não é o problema aqui agora. A pergunta é: qual é o olhar de paixão? São vários, porque paixões são várias. Mas esse tem um poder cativante que eu proporei mais tarde. Deve ser bem específico, pois se não, me apaixonaria mais vezes. Deixa eu dar mais contexto. Quando estou interessada em alguém, em geral também estou por várias outras pessoas. Mas nem todas as vezes eu chamo de paixão. E há dois anos atrás aprendi que paixão não é intrinsecamente boa, aliás dói bastante. Mas eu não tinha me apaixonado antes? Fui pegar o sarampo depois de adulta? Não, mas o contexto estava mais complexo. Fui pega desprevenida numa friagem boa. (É sarampo ou resfriado?)
Me apaixonei de novo. Por que, com essa pessoa diferente, que não me machucou, sinto-me mal como da última vez? Hoje reparei numa coincidência na maneira como me interessei por eles. Eles me viram antes que eu os visse e se interessaram por mim. Me conheceram já com aquele olhar. Eu me senti amada sem ter que me esforçar por isso. Lembra qual foi a primeira vez que isso me aconteceu? Desculpe pela psicanálise, mas provavelmente foi naquela época remota em que era bebê. Tudo bem, isso é apenas uma hipótese. Vou registrá-la aqui pela utilidade posterior. Se eu decidir que não faz sentido, venho aqui retificar. Aprendi a palavra retificar no 1984. Eu quero uma mãe que não vá embora, e misteriosamente, ela é um homem. Nota: nunca me apaixonei dessa maneira por uma mulher, isso está na minha lista de tarefas.
~~~~~
Ai, gente. A Groselha. Coisa linda com a Vodka.
~~~~~
Deixa eu voltar antes que eu esqueça. Não que isso já não tenha acontecido. Fui na cozinha e a Vodka falou por mim. Como é que a pessoa se prepara para representar ela mesma no cinema ou teatro? Me referia a Quero Ser John Malcovich. Ele disse que pensa nisso quanto a pessoa que canta, interpreta canções. Não é ela, mas também não deixa de ser. Disse que faria um mestrado pensando nisso. Possivelmente não mais o veja por isso desejo-lhe sorte.
~~~~~
Voltei. E ontem no concerto, não queria que acabasse. Apesar de não poder sair das poses de pegar na mão e sentar comportado, por que acabar aquilo? Ai que está a obsessão.
Não quero definir muito. Mas não posso deixar de definir alguma coisa. Pelo bem do senso de realidade. (Posso alterar isso.)
A obsessão. Estava ali, no quarto, com um bando de pessoas, um copo e um cigarro ilegal. Não a obsessão, eu. E NINGUÉM ESTÁ AQUI PARA ME VER E TAMBÉM NÃO QUERO QUALQUER PESSOA. Penso em mais coisas, quero elaborar cada frase. É legal, sentir que te reconhecem. Por isso a psicanálise. Para falar de mim e ter a impressão que falo alguma coisa socialmente interessante. Pois é, estava no quarto e gostava das pessoas de lá. Não era eu, era a Vodka. E a Vodka teve uma ideia, mas eu não lembro. Pois é. Estava no quarto. E gostava das pessoas de lá. Quero elas todas no meu quarto, enquanto não estou, e esse é o Cigarro ilegal falando. As pessoas no meu quarto e eu não estou. O Cigarro esqueceu.
Sim! eu queria falar do .... . Posso, por favor, não ser uma pessoa razoável. Vou contar a estória
~~~~~
Eu nunca fui e agora só consigo olhar as outras pessoas. Eu preciso de voz. Literalmente. Eu nem mais falo sobre isso.
Nossa, tá bom já. Penso em continuar porque agora acabou a tensão. Sei o que é só não sei porque. E lembrei do que ele disse. Não, ele não disse. Fui eu. Bem, ele disse que não era ele cantando, mas não deixava de ser. Então é isso. Vou ser o que não deixa de ser eu. Mas não eu. (Tenho um livro para ler. O Ambiente e os Processos de Maturação.) Vou conquistar o desejo de ter a voz linda, potente e nunca vou deixar de ser um nada. Mas não como se as duas coisas se anulassem. Porque há um desejo e ele é realizado. É um desejo sensual, sem nunca chegar a ser sexual. Não muda essencialmente nada mas acontece.
~~~~~
Pronto, estou satisfeita, vou lá interagir. Mesmo com os olhos vermelhos.
~~~~~
Ps. Vou amar minha mãe-homem e procurar uma fonoaudióloga.
~~~~~
Eu não sou uma pessoa inteira.
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Um texto pode ser uma resenha, uma carta, um ensaio, uma dissertação, um e-mail. Um texto de blog. Um texto de blog parece-me mais fácil, mais livre. E escrever a mão ou digitar me impõe intuições de estilo diferentes. Por exemplo, estou digitando como se estivesse conversando com alguém. (Uma conversa informal). É fácil escrever assim, mais me angustio em pensar que não estou escrevendo para nenhuma pessoa específica. Você pode ler e gostar, ou pode não fazer diferença. Não tenho exatamente medo da sua opinião sobre ele. O fato é que ninguém está ai. Eu estou sozinha.
Tem uma banda tocando no meu quarto. Eu não estudo mais música. Meu pulso direito dói. Minha garganta, minhas costas doem. Porque dói não ser nada e se esforçar para ser alguma coisa. De fato, sou uma esponja. A banda me invade, e é bom, eu quero. A vizinha canta e me invade, e é ruim. As pessoas falam ao mesmo tempo, e eu deixo me invadir as vezes, as vezes demais. Eu espero entrar nelas também. Posso introduzir um assunto. Posso reescrever, mas talvez não dê vontade. Vou explicar porque não gosto de estudar. Me faz sentir que não sou suficiente ainda. Sim, sempre há o que se estudar. Estou dizendo suficiente para simplesmente ter direito de existir e ser deixada em paz. Não era esse o assunto. Era 'o olhar de algumas pessoas'.
Não sei o que você chama de paixão. Das coisas terríveis do mundo, uma delas é que eu nunca vou realmente entender como você se sente. É um milagre, eu repito em todo lugar, que duas pessoas se encontrem e conversem, aparentemente, sobre o mesmo assunto. Estou rindo agora porque me lembrei de uma ocasião em que duas amigas conversavam comigo e minha mãe. Eu estava quieta e esperava uma oportunidade de falar. Não sei se não me deram a oportunidade ou se não a reinvindiquei. Eu era jovem. Ri de novo, pois sou jovem. Bem, observava, e eram dois monólogos alternados. Elas queriam falar, ouvir a si mesmas e era só isso. Eu me senti usada. (Mas foi só como me senti, não foi o que elas fizeram comigo).
Ah sim, a paixão. O olhar de paixão de algumas pessoas. Foi assim, há dois anos me apaixonei, do tipo de perder a fome (perdi três quilos numa semana). Altos e baixos, mais baixos que altos foram. Mas esse não é o problema aqui agora. A pergunta é: qual é o olhar de paixão? São vários, porque paixões são várias. Mas esse tem um poder cativante que eu proporei mais tarde. Deve ser bem específico, pois se não, me apaixonaria mais vezes. Deixa eu dar mais contexto. Quando estou interessada em alguém, em geral também estou por várias outras pessoas. Mas nem todas as vezes eu chamo de paixão. E há dois anos atrás aprendi que paixão não é intrinsecamente boa, aliás dói bastante. Mas eu não tinha me apaixonado antes? Fui pegar o sarampo depois de adulta? Não, mas o contexto estava mais complexo. Fui pega desprevenida numa friagem boa. (É sarampo ou resfriado?)
Me apaixonei de novo. Por que, com essa pessoa diferente, que não me machucou, sinto-me mal como da última vez? Hoje reparei numa coincidência na maneira como me interessei por eles. Eles me viram antes que eu os visse e se interessaram por mim. Me conheceram já com aquele olhar. Eu me senti amada sem ter que me esforçar por isso. Lembra qual foi a primeira vez que isso me aconteceu? Desculpe pela psicanálise, mas provavelmente foi naquela época remota em que era bebê. Tudo bem, isso é apenas uma hipótese. Vou registrá-la aqui pela utilidade posterior. Se eu decidir que não faz sentido, venho aqui retificar. Aprendi a palavra retificar no 1984. Eu quero uma mãe que não vá embora, e misteriosamente, ela é um homem. Nota: nunca me apaixonei dessa maneira por uma mulher, isso está na minha lista de tarefas.
~~~~~
Ai, gente. A Groselha. Coisa linda com a Vodka.
~~~~~
Deixa eu voltar antes que eu esqueça. Não que isso já não tenha acontecido. Fui na cozinha e a Vodka falou por mim. Como é que a pessoa se prepara para representar ela mesma no cinema ou teatro? Me referia a Quero Ser John Malcovich. Ele disse que pensa nisso quanto a pessoa que canta, interpreta canções. Não é ela, mas também não deixa de ser. Disse que faria um mestrado pensando nisso. Possivelmente não mais o veja por isso desejo-lhe sorte.
~~~~~
Voltei. E ontem no concerto, não queria que acabasse. Apesar de não poder sair das poses de pegar na mão e sentar comportado, por que acabar aquilo? Ai que está a obsessão.
Não quero definir muito. Mas não posso deixar de definir alguma coisa. Pelo bem do senso de realidade. (Posso alterar isso.)
A obsessão. Estava ali, no quarto, com um bando de pessoas, um copo e um cigarro ilegal. Não a obsessão, eu. E NINGUÉM ESTÁ AQUI PARA ME VER E TAMBÉM NÃO QUERO QUALQUER PESSOA. Penso em mais coisas, quero elaborar cada frase. É legal, sentir que te reconhecem. Por isso a psicanálise. Para falar de mim e ter a impressão que falo alguma coisa socialmente interessante. Pois é, estava no quarto e gostava das pessoas de lá. Não era eu, era a Vodka. E a Vodka teve uma ideia, mas eu não lembro. Pois é. Estava no quarto. E gostava das pessoas de lá. Quero elas todas no meu quarto, enquanto não estou, e esse é o Cigarro ilegal falando. As pessoas no meu quarto e eu não estou. O Cigarro esqueceu.
Sim! eu queria falar do .... . Posso, por favor, não ser uma pessoa razoável. Vou contar a estória
~~~~~
Eu nunca fui e agora só consigo olhar as outras pessoas. Eu preciso de voz. Literalmente. Eu nem mais falo sobre isso.
Nossa, tá bom já. Penso em continuar porque agora acabou a tensão. Sei o que é só não sei porque. E lembrei do que ele disse. Não, ele não disse. Fui eu. Bem, ele disse que não era ele cantando, mas não deixava de ser. Então é isso. Vou ser o que não deixa de ser eu. Mas não eu. (Tenho um livro para ler. O Ambiente e os Processos de Maturação.) Vou conquistar o desejo de ter a voz linda, potente e nunca vou deixar de ser um nada. Mas não como se as duas coisas se anulassem. Porque há um desejo e ele é realizado. É um desejo sensual, sem nunca chegar a ser sexual. Não muda essencialmente nada mas acontece.
~~~~~
Pronto, estou satisfeita, vou lá interagir. Mesmo com os olhos vermelhos.
~~~~~
Ps. Vou amar minha mãe-homem e procurar uma fonoaudióloga.
domingo, 10 de fevereiro de 2013
Sol de Primavera
Gente, que preguiça.
Passei duas noites dormindo mal, pensando no que iria escrever assim que conseguisse editar e postar o vídeo. Como era de se esperar, não lembro-me mais.
É curioso como as palavras perdem o sabor com o tempo.
Bem, vou escrever sobre trivialidades enquanto encontro inspiração. Ontem passou Clube da Luta na TV de novo. Eu não havia percebido que as pessoas do clube continuaram gado mas com dono novo. Grande besteira isso. Mas enfim, é só ficção, vou tentar não ficar muito irritada.Entretanto, só de olhar pro Edward Norton eu fico boazinha. Não sei o que vi nele, até acho-o feio.
***
Os reais motivos que me levaram a querer escrever outro post: eu gravei um vídeo, depois de muito tempo matutando sobre. Vou escrever aqui para começar a manter um relatório do meu progresso, e os videos serão evidências.
Assistam o vídeo. Nem se assustem pois eu fiz tudo às pressas.
2011. Comecei a estudar canto lírico no Conservatório de Tatuí. No ano anterior estudei alguns meses com a Camila Senne. No Conservatório passei por 4 professoras em um semestre. Isso é uma bagunça quando você tem que apresentar peças para avaliação pois cada professora quer que você cante diferentes canções com diferentes abordagens. Cancelei a matrícula no meio do segundo semestre, a tempo de reprovar Álgebra II (na USP).
2012. Depois de desistir umas 3 vezes, em abril conheci a Mônica D'Avila. Acho que encontrei finalmente uma professora compatível com a minha maluquice. Pelo menos é o que parece pois já se passaram 10 meses. Ademais, entrei no CoralUSP no grupo Sul Fiato e pela primeira vez na minha vida meus ouvidos se abriram para a música coral.
Ainda em 2012 tive a oportunidade de conhecer alguns dos perigos da profissão de cantora. A catálise surgiu em uma noite em que eu acabei passando 4 horas conversando com alguns amigos depois de duas horas de ensaio com o coral. Desse dia em diante treinar, falar ou ensaiar tornaram-se suplício. Desde então (não desde então, desde antes, mas como eu disse, foi uma catálise) tenho me sentido bastante deprimida. Acho que poucas pessoas sabiam o quanto e por quanto tempo eu desejo ser bem sucedida no canto e quanto tem sido frustrante a minha trajetória. A Mônica viu um pouco disso quando, depois de ela me perguntar durante uma aula "Afinal, há quanto tempo você estuda? Como pode esperar tanto depois de alguns meses apenas?" eu comecei a chorar. Ela não sabe que aquela não foi a primeira vez que ela me fez chorar.
Então no meio de questões emocionais delicadas para mim, de repente eu estava (estou) impossibilitada de sequer estudar propriamente. Por quê?
De repente o texto virou um desabafo. Eu caminho no muro entre o formal e o piegas. Não consigo me identificar com alguma coisa sem a impressão de estar copiando. Eu quero criar o novo indizível. Eu quero ter uma cara e uma forma. Eu quero saber como eu quero.
Estou muito velha para essas coisas? Não, não.
2013. Planos ou quasiplanos. (Hi!, pensei em axiomas de quasiplano - alguém tem alguma sugestão?)
- Encontrar uma fonoaudióloga que cobre pouco!
- Interiorizar o conceito de apoio.
- Dar "corpo" a minha voz.
- Aguentar um treino mais longo.
- Encontrar uma banda que me aceite no backing vocal.
Fiquei cansada. Até escreveria mais, mas tenho vergonha de me expor. Porém, tenho feito umas coisinhas assanhadas ultimamente nesse sentido.
Não quero mais pensar nisso.
Passei duas noites dormindo mal, pensando no que iria escrever assim que conseguisse editar e postar o vídeo. Como era de se esperar, não lembro-me mais.
É curioso como as palavras perdem o sabor com o tempo.
Bem, vou escrever sobre trivialidades enquanto encontro inspiração. Ontem passou Clube da Luta na TV de novo. Eu não havia percebido que as pessoas do clube continuaram gado mas com dono novo. Grande besteira isso. Mas enfim, é só ficção, vou tentar não ficar muito irritada.Entretanto, só de olhar pro Edward Norton eu fico boazinha. Não sei o que vi nele, até acho-o feio.
***
Os reais motivos que me levaram a querer escrever outro post: eu gravei um vídeo, depois de muito tempo matutando sobre. Vou escrever aqui para começar a manter um relatório do meu progresso, e os videos serão evidências.
Assistam o vídeo. Nem se assustem pois eu fiz tudo às pressas.
2011. Comecei a estudar canto lírico no Conservatório de Tatuí. No ano anterior estudei alguns meses com a Camila Senne. No Conservatório passei por 4 professoras em um semestre. Isso é uma bagunça quando você tem que apresentar peças para avaliação pois cada professora quer que você cante diferentes canções com diferentes abordagens. Cancelei a matrícula no meio do segundo semestre, a tempo de reprovar Álgebra II (na USP).
2012. Depois de desistir umas 3 vezes, em abril conheci a Mônica D'Avila. Acho que encontrei finalmente uma professora compatível com a minha maluquice. Pelo menos é o que parece pois já se passaram 10 meses. Ademais, entrei no CoralUSP no grupo Sul Fiato e pela primeira vez na minha vida meus ouvidos se abriram para a música coral.
Ainda em 2012 tive a oportunidade de conhecer alguns dos perigos da profissão de cantora. A catálise surgiu em uma noite em que eu acabei passando 4 horas conversando com alguns amigos depois de duas horas de ensaio com o coral. Desse dia em diante treinar, falar ou ensaiar tornaram-se suplício. Desde então (não desde então, desde antes, mas como eu disse, foi uma catálise) tenho me sentido bastante deprimida. Acho que poucas pessoas sabiam o quanto e por quanto tempo eu desejo ser bem sucedida no canto e quanto tem sido frustrante a minha trajetória. A Mônica viu um pouco disso quando, depois de ela me perguntar durante uma aula "Afinal, há quanto tempo você estuda? Como pode esperar tanto depois de alguns meses apenas?" eu comecei a chorar. Ela não sabe que aquela não foi a primeira vez que ela me fez chorar.
Então no meio de questões emocionais delicadas para mim, de repente eu estava (estou) impossibilitada de sequer estudar propriamente. Por quê?
De repente o texto virou um desabafo. Eu caminho no muro entre o formal e o piegas. Não consigo me identificar com alguma coisa sem a impressão de estar copiando. Eu quero criar o novo indizível. Eu quero ter uma cara e uma forma. Eu quero saber como eu quero.
Estou muito velha para essas coisas? Não, não.
2013. Planos ou quasiplanos. (Hi!, pensei em axiomas de quasiplano - alguém tem alguma sugestão?)
- Encontrar uma fonoaudióloga que cobre pouco!
- Interiorizar o conceito de apoio.
- Dar "corpo" a minha voz.
- Aguentar um treino mais longo.
- Encontrar uma banda que me aceite no backing vocal.
Fiquei cansada. Até escreveria mais, mas tenho vergonha de me expor. Porém, tenho feito umas coisinhas assanhadas ultimamente nesse sentido.
Não quero mais pensar nisso.
segunda-feira, 23 de maio de 2011
Aprendizagem vocal II
Vamos ver se um dia torno este blog inteiramente dedicado ao mais secreto instrumento musical. (Vamos antes ver se eu assimilo o hábito de escrever nele!)
Hoje eu vou postar trechos de um texto contido no livro "TRABALHANDO A VOZ", organizado por Léslie Piccolotto Ferreira, que achei na biblioteca da ECA-USP. Alias, lá tem livros maravilhosos nessa área, só que são um tanto escassos.
O texto é da professora Regina Maria Freire, e conta um relato incrível sobre umas de suas experiencias no setor de Fonoaudiologia da Santa Casa de Misericódia.
ATRASO DE MUDA VOCAL: FENÔMENO DA PUBERDADE?
[...]
[Entre os problemas de voz], o que mais surpreende o profissional é o chamado "atraso de muda vocal ou muda vocal incompleta".
Enquanto as "disfonias" nos remetem à dicotomia origem orgânica versus funcional, avaliação objetiva versus subjetiva, indicação cirúrgica versus fonoaudiológica, os atrasos de muda vocal primam pela unicidade.
Caracterizada pela manutenção do pradrão vocal infantil contíguo a um exame laringoscópico normal, a muda vocal incompleta é observada usualmente em jovens do sexo masculino.
Nestes, as mudanças hormonais específicas da puberdade manifestam-se na voz de forma mais incisiva, o que somando-se à crise de identidade própria da adolescência contribui para o aparecimento do quadro.
[...]
Os sujeitos que apresentam atraso de muda vocal são indivíduos preocupados com os reflexos da voz em suas relações sociais e profissionais, geralmente entre idades de 15 e 22 anos.
À avaliação, apenas a altura encontra-se alterada, apresentando-se ou sistematicamente mais aguda que o esperado ou então instável, com momentos de agudização alternados com agravamento. O timbre permanece claro e o volume normal. A respiração e a coordenação pneumofonoarticulátória também nao apresentam alterações. Pode-se observar aumento de tensão a nível cervical, gerado pelo esforço para a manutenção da laringe alta.
[...]
O processo terapêutico é rápido e bem-sucedido, em função da inexistência de impedimento orgânico à produção da voz normal. Vários procedimentos terapêuticos podem ser utilizados, mas há um único objetivo a ser atingido: o abaixamento da laringe com o consequente agravamento da voz.
A simplicidade do diagnóstico somada à plasticidade vocal destes jovens não torna a terapia interessante de ser descrita, a menos que o paciente em questão não seja um jovem.
Passo a descrever o processo terapêutico de um caso típico de atraso de muda vocal, cujo interesse maior está na idade do paciente: 56 anos.
Este paciente, que chamarei de R., procurou sem sucesso um tratamento para a voz. Todos os otorrinos que o examinaram, e não foram poucos, ao encontrarem uma laringe normal em paciente de terceira idade, jamais poderiam imaginar que se defrontavem com um atraso de muda vocal, quadro característico da adolescência.
[...]
Embora tenha imediatamente identificado o quadro de que R. era portador, não acreditei inicialmente nas suas possibilidades de desenvolver uma nova voz aos 56 anos de idade!
[...]
As sessões foram realizadas duas vezes por semana e tiveram início no dia 26 de maio e término no dia 1º de setembro, após 14 sessões de terapia.
Detalho a seguir, o trabalho que foi desenvolvido em cada uma das sessões que compuseram o tratamento.
1ª sessão - 26/5 - Mostro a R. que todos temos possibilidade de emitir sons agudos e graves. Emito a vogal /u/ de forma bem agravada e solicito-lhe que faça o mesmo. Aṕos algumas tentativas, consegue a emissão desejada.
2ª sessão - 31/5 - Solicito a emissão das vogais isoladas, sempre com a voz agravada. A seguir trabalhamos com a emissão de vogais combinadas, de vocábulos monossílabos, dissílabos e trissílabos. R. conversa comigo com sua voz habitual, e usa a voz agravada somente quando solicitado. Sua "nova voz" é um tom mais grave que o adequado, não se mantendo até o final da emissão, ou seja, geralmente a sílaba ou a vogal final é emitida na voz habitual.
3ª sessão - 2/6 - Emissão prolongada de vogais isoladas. Emissão de vocábulos. Aparecimento de pigarro decorrente da nova posião das cordas vocais. Introdução do relaxamento específico de Jacobson, com o objetivo não só de diminuir a tensão cervical habitual, como também a tensão introduzida com o uso da "nova voz".
[...]
6ª sessão - 16/6 - Além dos exercícios habituais, introduzo a leitura de textos. Intermediando a leitura, nosso diálogo é feito já com a "nova voz", embora esta ainda seja instável.
[...]
9ª sessão - 28/6 - R. refere que após a sessão de quinta-feira passou a usar somente a "nova voz": na loja, na rua, em casa, com os parentes.
Na 6ª-feira, como sentisse muita dor na laringe e cansaço, voltou a falar com a "antiga voz" o dia todo. À noite usou a "nova voz" para falar com o sobrinho. No sábado, continuou usando a "antiga voz". À tarde, conversou com a sobrinha usando a "nova voz". Sentiu muito cansaço, fez relaxamento e dormiu bem. No domingo, foi à casa do irmão e começou falando com a "voz antiga", passando depois a conversar com a "nova voz". Parou de usá-la durante o almoço e depois conversou com outros familiares com a "nova voz". Todos lhe deram apoio. Misturava as vozes o tempo todo.
Este relato foi todo realizado com R. usando sua "nova voz". Continuamos com os exercícios.
[...]
11ª sessão - 7/7 - R. relata estar usando somente a "nova voz". No entanto, refere outros sintomas paralelos ao uso desta "nova voz". Sente cansaço geral, rouquidão, falta de ar, instabilidade vocal.
Explico-lhe que isto é normal, pois está usando uma nova forma de falar que modifica a sua imagem anterior de indivíduo. É o período de adaptação. Recomendo relaxamento em casa e persistência no uso da "nova voz".
14ª sessão - 1/9 - R. relata estar ótimo. Sua voz é clara e adequada a seu tipo físico. Não apresenta sintomas paralelos. O pigarro desapareceu. Está confiante e seguro de si. Não existe mais uma "voz antiga" e uma "nova voz". Alta.
Meu procedimento ao trabalhar com este caso foi idêntico ao utilizado habitualmente nos quadros de atraso de muda vocal. Resumindo: não utilizei nenhuma manobra manual (tal como manipulação da laringe) para que R. produzisse o tom adequado. Demonstrando-lhe que eu própria podia falar com voz mais grave e solicitando-lhe a imitação da minha voz, obtive a sua emissão. Em seguida foi só expandir a vocalização até chegar ao diálogo.
O maior desafio foi o período de integração da nova voz. Por toda sua vida, R. se conhecia e e ficou conhecido como portador de uma voz agudizada e até feminina. A contribuição espontânea de amigos e familiares que o incentivaram no uso da nova voz e a sua vontade de superar obstáculos permitiram a construção de um novo padrão vocal, cuja influência em sua vida pode ser sentida nas palavras que R. fez questão de deixar gravadas no dia de sua alta:
"3ª -feira, 28 de junho, foi um dia marcante em minha vida, foi o dia da minha alegria e da minha felicidade ao adquirir esta nova voz. Quero deixar gravado para a sra. d. Regina o meu eterno respeito, a minha eterna gratidão, pelo que a sra. fez por mim, com paciência, dedicação e bondade. O meu muito obrigado e meu Deus lhe pague."
Até hoje mantenho contato com R., exemplo vivo da plasticidade vocal do Homem e da impôrtancia da Fonoaudiologia no contexto social.
__________________
Hoje eu vou postar trechos de um texto contido no livro "TRABALHANDO A VOZ", organizado por Léslie Piccolotto Ferreira, que achei na biblioteca da ECA-USP. Alias, lá tem livros maravilhosos nessa área, só que são um tanto escassos.
O texto é da professora Regina Maria Freire, e conta um relato incrível sobre umas de suas experiencias no setor de Fonoaudiologia da Santa Casa de Misericódia.
ATRASO DE MUDA VOCAL: FENÔMENO DA PUBERDADE?
[...]
[Entre os problemas de voz], o que mais surpreende o profissional é o chamado "atraso de muda vocal ou muda vocal incompleta".
Enquanto as "disfonias" nos remetem à dicotomia origem orgânica versus funcional, avaliação objetiva versus subjetiva, indicação cirúrgica versus fonoaudiológica, os atrasos de muda vocal primam pela unicidade.
Caracterizada pela manutenção do pradrão vocal infantil contíguo a um exame laringoscópico normal, a muda vocal incompleta é observada usualmente em jovens do sexo masculino.
Nestes, as mudanças hormonais específicas da puberdade manifestam-se na voz de forma mais incisiva, o que somando-se à crise de identidade própria da adolescência contribui para o aparecimento do quadro.
[...]
Os sujeitos que apresentam atraso de muda vocal são indivíduos preocupados com os reflexos da voz em suas relações sociais e profissionais, geralmente entre idades de 15 e 22 anos.
À avaliação, apenas a altura encontra-se alterada, apresentando-se ou sistematicamente mais aguda que o esperado ou então instável, com momentos de agudização alternados com agravamento. O timbre permanece claro e o volume normal. A respiração e a coordenação pneumofonoarticulátória também nao apresentam alterações. Pode-se observar aumento de tensão a nível cervical, gerado pelo esforço para a manutenção da laringe alta.
[...]
O processo terapêutico é rápido e bem-sucedido, em função da inexistência de impedimento orgânico à produção da voz normal. Vários procedimentos terapêuticos podem ser utilizados, mas há um único objetivo a ser atingido: o abaixamento da laringe com o consequente agravamento da voz.
A simplicidade do diagnóstico somada à plasticidade vocal destes jovens não torna a terapia interessante de ser descrita, a menos que o paciente em questão não seja um jovem.
Passo a descrever o processo terapêutico de um caso típico de atraso de muda vocal, cujo interesse maior está na idade do paciente: 56 anos.
Este paciente, que chamarei de R., procurou sem sucesso um tratamento para a voz. Todos os otorrinos que o examinaram, e não foram poucos, ao encontrarem uma laringe normal em paciente de terceira idade, jamais poderiam imaginar que se defrontavem com um atraso de muda vocal, quadro característico da adolescência.
[...]
Embora tenha imediatamente identificado o quadro de que R. era portador, não acreditei inicialmente nas suas possibilidades de desenvolver uma nova voz aos 56 anos de idade!
[...]
As sessões foram realizadas duas vezes por semana e tiveram início no dia 26 de maio e término no dia 1º de setembro, após 14 sessões de terapia.
Detalho a seguir, o trabalho que foi desenvolvido em cada uma das sessões que compuseram o tratamento.
1ª sessão - 26/5 - Mostro a R. que todos temos possibilidade de emitir sons agudos e graves. Emito a vogal /u/ de forma bem agravada e solicito-lhe que faça o mesmo. Aṕos algumas tentativas, consegue a emissão desejada.
2ª sessão - 31/5 - Solicito a emissão das vogais isoladas, sempre com a voz agravada. A seguir trabalhamos com a emissão de vogais combinadas, de vocábulos monossílabos, dissílabos e trissílabos. R. conversa comigo com sua voz habitual, e usa a voz agravada somente quando solicitado. Sua "nova voz" é um tom mais grave que o adequado, não se mantendo até o final da emissão, ou seja, geralmente a sílaba ou a vogal final é emitida na voz habitual.
3ª sessão - 2/6 - Emissão prolongada de vogais isoladas. Emissão de vocábulos. Aparecimento de pigarro decorrente da nova posião das cordas vocais. Introdução do relaxamento específico de Jacobson, com o objetivo não só de diminuir a tensão cervical habitual, como também a tensão introduzida com o uso da "nova voz".
[...]
6ª sessão - 16/6 - Além dos exercícios habituais, introduzo a leitura de textos. Intermediando a leitura, nosso diálogo é feito já com a "nova voz", embora esta ainda seja instável.
[...]
9ª sessão - 28/6 - R. refere que após a sessão de quinta-feira passou a usar somente a "nova voz": na loja, na rua, em casa, com os parentes.
Na 6ª-feira, como sentisse muita dor na laringe e cansaço, voltou a falar com a "antiga voz" o dia todo. À noite usou a "nova voz" para falar com o sobrinho. No sábado, continuou usando a "antiga voz". À tarde, conversou com a sobrinha usando a "nova voz". Sentiu muito cansaço, fez relaxamento e dormiu bem. No domingo, foi à casa do irmão e começou falando com a "voz antiga", passando depois a conversar com a "nova voz". Parou de usá-la durante o almoço e depois conversou com outros familiares com a "nova voz". Todos lhe deram apoio. Misturava as vozes o tempo todo.
Este relato foi todo realizado com R. usando sua "nova voz". Continuamos com os exercícios.
[...]
11ª sessão - 7/7 - R. relata estar usando somente a "nova voz". No entanto, refere outros sintomas paralelos ao uso desta "nova voz". Sente cansaço geral, rouquidão, falta de ar, instabilidade vocal.
Explico-lhe que isto é normal, pois está usando uma nova forma de falar que modifica a sua imagem anterior de indivíduo. É o período de adaptação. Recomendo relaxamento em casa e persistência no uso da "nova voz".
14ª sessão - 1/9 - R. relata estar ótimo. Sua voz é clara e adequada a seu tipo físico. Não apresenta sintomas paralelos. O pigarro desapareceu. Está confiante e seguro de si. Não existe mais uma "voz antiga" e uma "nova voz". Alta.
Meu procedimento ao trabalhar com este caso foi idêntico ao utilizado habitualmente nos quadros de atraso de muda vocal. Resumindo: não utilizei nenhuma manobra manual (tal como manipulação da laringe) para que R. produzisse o tom adequado. Demonstrando-lhe que eu própria podia falar com voz mais grave e solicitando-lhe a imitação da minha voz, obtive a sua emissão. Em seguida foi só expandir a vocalização até chegar ao diálogo.
O maior desafio foi o período de integração da nova voz. Por toda sua vida, R. se conhecia e e ficou conhecido como portador de uma voz agudizada e até feminina. A contribuição espontânea de amigos e familiares que o incentivaram no uso da nova voz e a sua vontade de superar obstáculos permitiram a construção de um novo padrão vocal, cuja influência em sua vida pode ser sentida nas palavras que R. fez questão de deixar gravadas no dia de sua alta:
"3ª -feira, 28 de junho, foi um dia marcante em minha vida, foi o dia da minha alegria e da minha felicidade ao adquirir esta nova voz. Quero deixar gravado para a sra. d. Regina o meu eterno respeito, a minha eterna gratidão, pelo que a sra. fez por mim, com paciência, dedicação e bondade. O meu muito obrigado e meu Deus lhe pague."
Até hoje mantenho contato com R., exemplo vivo da plasticidade vocal do Homem e da impôrtancia da Fonoaudiologia no contexto social.
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segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
Aprendizagem vocal
Meu teclado nao funciona. Por que? Porque sou acomodada...
Esse comodismo me impediu de escrever esse texto há meses, literalmente meses. E o efeito é que nao escreverei com o mesmo gosto que teria escrito antes, quando a idéia estava fresca num galho da minha mente.
Um amigo me pediu para falar sobre técnica vocal, mas desde o princípio devo dizer desculpa, apenas ler isto nao vai mudar nada. Outra coisa, para os estudados que passarem por aqui:
ESTE TEXTO É PSEUDO-BASEADO EM TEORIA. PREPARE-SE PARA LER BESTEIRAS!
Mas por favor, assim que detectá-las, me avise! Qual é a utilidade de um texto se nao aprende-se nada escrevendo-o?
O dia que esse amigo fez-me o pedido (pela qual-ésima vez?) coincidiu com a época que me professor de Física decidiu falar sobre oscilaçoes. Aliás, naquele dia iria um substituto, e eu apenas fui a aula porque pensei que haveria lista de chamada, afinal, meio semestre havia passado e eu nao apredera mais do que já sabia do Ensino Médio.
O substituto era simpático mas falava baixo e nao raramente falava sozinho. E aquelas equações diferenciais faziam cócegas muito superficiais no meu cérebro. Preciso de café. Pouco mais de uma hora falando de senos, exponenciais, molas e discos girando em fluídos, freios, amortecedores e o escambal.
Muita vontade de perguntar sobre colunas de ar - nao perguntei.
Nao colocarei (agora) as equações aqui, pois estou de férias e em outro mundo, pórem uma breve explicaçao que todos podem entender.
Imagine uma mola, um bloco no chão preso à mola, voce puxa o bloco e o solta. Não.
Imagine um balanço, uma menininha sentada nele, o ar e você. Voce empurra a menina uma vez. O balanço balança(!), balança... balança e para. Por que ele para? Por simplicidade, pela resistencia do ar.
Bem, voce resolve entao balançá-la periodicamente, para que a brincadeira nao seja tao breve. Ela vaai e voolta, voce empurra, ela vaai e volta. Empurrando na frequencia certa, ela irá mais e mais alto (até um certo limite né?). Empurrando em outras frequencias, que nao combinem com o movimento do balanço, perceberá que aquele ficará estranho. Isso é muito intuitivo, concorda?
O que acontece é que existem (simplificadamente) três forças atuando aí: o Peso da menina, a Resistencia do ar, e a Força que voce aplica.
***
Já pegou um papel de bala, esticou, e soprou para fazer aquele barulhinho fiuuu?
É isso que acontece com as cordas vocais quando falamos ou cantamos.
Alias, já cantou "dentro" de uma garrafa? Percebeu como o som se altera? Agradeça pela sua cabeça oca, sua caixa de ressonancia natural.
***
Voltando a aula daquele dia, o professor seguiu manipulando umas equações e tcharan:
Ressonância - quando um sistema entra em ressonância, significa que atingiu sua amplitude máxima. (O mais alto que a menininha do balanço pode chegar sem cair, o volume máximo que seu corpo pode dar a sua voz, para que ela encha a sala daquele auditório - sem dor de garganta!)
Coisas sobre o estado de ressonância:
1 - "A amplitude de um sistema é MÁXIMA, quando a resistencia é nula."
2 - "Quando em estado de ressonância, o sistema precisa de POTÊNCIA MAXIMA."
Link para um texto mais abrangente sobre ressonância.
Sim, ao que parece, ressonância é um nirvana para os cantores! =)
Traduzindo as coisas acima: nao pense em descansar, cantar é esforço, mas tem que ser aplicado corretamente, afinal o ar precisa passar pela sua garganta antes de ser amplificado. Se seu pescoço está tenso, se contrai e fecha a passagem de ar, mais esforço errôneo, mais contração, mais difícil a passagem do ar. Agora está doendo né?
Bem, vencida a primeira barreira, o som viaja loucamente pela sua boca e é amortecido e quando resolve sair, já perdeu muita energia. (Failure again) Imagine entao que há um espelho no palato (céu da boca) que irá refletir todos os feixes de luz sonora direto para os seus lábios e de lá para todo o universo! (Tá, viajei).
Na pratica isso pode parecer nada óbvio. E mesmo a ciência não tem respostas satisfatórias para explicar precisamente os mecanismos da fonação. Por isso, na maior parte do tempo o cantor estuda priorizando as sensações.
Em breve, devido a necessidade de entregar um trabalho decente na escola, postarei um texto bem mais preciso. Então, obrigada por ter acompanhado até aqui e espere a próxima!
Esse comodismo me impediu de escrever esse texto há meses, literalmente meses. E o efeito é que nao escreverei com o mesmo gosto que teria escrito antes, quando a idéia estava fresca num galho da minha mente.
Um amigo me pediu para falar sobre técnica vocal, mas desde o princípio devo dizer desculpa, apenas ler isto nao vai mudar nada. Outra coisa, para os estudados que passarem por aqui:
ESTE TEXTO É PSEUDO-BASEADO EM TEORIA. PREPARE-SE PARA LER BESTEIRAS!
Mas por favor, assim que detectá-las, me avise! Qual é a utilidade de um texto se nao aprende-se nada escrevendo-o?
O dia que esse amigo fez-me o pedido (pela qual-ésima vez?) coincidiu com a época que me professor de Física decidiu falar sobre oscilaçoes. Aliás, naquele dia iria um substituto, e eu apenas fui a aula porque pensei que haveria lista de chamada, afinal, meio semestre havia passado e eu nao apredera mais do que já sabia do Ensino Médio.
O substituto era simpático mas falava baixo e nao raramente falava sozinho. E aquelas equações diferenciais faziam cócegas muito superficiais no meu cérebro. Preciso de café. Pouco mais de uma hora falando de senos, exponenciais, molas e discos girando em fluídos, freios, amortecedores e o escambal.
Muita vontade de perguntar sobre colunas de ar - nao perguntei.
Nao colocarei (agora) as equações aqui, pois estou de férias e em outro mundo, pórem uma breve explicaçao que todos podem entender.
Imagine uma mola, um bloco no chão preso à mola, voce puxa o bloco e o solta. Não.
Imagine um balanço, uma menininha sentada nele, o ar e você. Voce empurra a menina uma vez. O balanço balança(!), balança... balança e para. Por que ele para? Por simplicidade, pela resistencia do ar.
Bem, voce resolve entao balançá-la periodicamente, para que a brincadeira nao seja tao breve. Ela vaai e voolta, voce empurra, ela vaai e volta. Empurrando na frequencia certa, ela irá mais e mais alto (até um certo limite né?). Empurrando em outras frequencias, que nao combinem com o movimento do balanço, perceberá que aquele ficará estranho. Isso é muito intuitivo, concorda?
O que acontece é que existem (simplificadamente) três forças atuando aí: o Peso da menina, a Resistencia do ar, e a Força que voce aplica.
***
Já pegou um papel de bala, esticou, e soprou para fazer aquele barulhinho fiuuu?
É isso que acontece com as cordas vocais quando falamos ou cantamos.
Alias, já cantou "dentro" de uma garrafa? Percebeu como o som se altera? Agradeça pela sua cabeça oca, sua caixa de ressonancia natural.
***
Voltando a aula daquele dia, o professor seguiu manipulando umas equações e tcharan:
Ressonância - quando um sistema entra em ressonância, significa que atingiu sua amplitude máxima. (O mais alto que a menininha do balanço pode chegar sem cair, o volume máximo que seu corpo pode dar a sua voz, para que ela encha a sala daquele auditório - sem dor de garganta!)
Coisas sobre o estado de ressonância:
1 - "A amplitude de um sistema é MÁXIMA, quando a resistencia é nula."
2 - "Quando em estado de ressonância, o sistema precisa de POTÊNCIA MAXIMA."
Link para um texto mais abrangente sobre ressonância.
Sim, ao que parece, ressonância é um nirvana para os cantores! =)
Traduzindo as coisas acima: nao pense em descansar, cantar é esforço, mas tem que ser aplicado corretamente, afinal o ar precisa passar pela sua garganta antes de ser amplificado. Se seu pescoço está tenso, se contrai e fecha a passagem de ar, mais esforço errôneo, mais contração, mais difícil a passagem do ar. Agora está doendo né?
Bem, vencida a primeira barreira, o som viaja loucamente pela sua boca e é amortecido e quando resolve sair, já perdeu muita energia. (Failure again) Imagine entao que há um espelho no palato (céu da boca) que irá refletir todos os feixes de luz sonora direto para os seus lábios e de lá para todo o universo! (Tá, viajei).
Na pratica isso pode parecer nada óbvio. E mesmo a ciência não tem respostas satisfatórias para explicar precisamente os mecanismos da fonação. Por isso, na maior parte do tempo o cantor estuda priorizando as sensações.
Em breve, devido a necessidade de entregar um trabalho decente na escola, postarei um texto bem mais preciso. Então, obrigada por ter acompanhado até aqui e espere a próxima!
domingo, 2 de janeiro de 2011
Relatos de Ferias
Episódio de hoje - Como cativar gatinhos (Agarre o seu!)
Prólogo
Acabo de sair do banheiro, nonde passara as últimas horas imitando o sono de um gato.
Capítulo I
Dia de natal, depois do almoço. Meu avô descançava (descançava de que?) numa rede conversando com minha mãe. Eu estava... sei lá, minha memória anda péssima, mas a usando probabilidade como critério, eu estava dormindo. Não. Lavando louça.
"Vitória, corre aqui!"
"Que foi?"
"Olha que fofo!"
De alguma forma um filhote de gato veio parar aqui no quintal. Bem, se fosse para chutar (o motivo, não o gato!), já que a força gravitacional é uma lei da natureza, seria plausível supor que gatos atraem gatos? Nós já tinhamos sete. Me pergunto em quanto tempo teríamos um buraco negro que mia.
Tenho que dizer, adoro gatos, então mesmo se aquele fosse muito feio, aquela barriguinha rosada me conquistaria. Precisava de um nome curto, fofinho e que terminasse em i. Caiti. Sagüi. Ií. Nao. Sarrus! Sim, o da regra. Sim, "termina" em i.
Sarrus, Sarrus
Não me deixa dormir.
"Não gato, eu não sou sua mamãe. Aliás não tenho teta. (Aliás tenho.) Pare, pelamordedeus, de me morder! E eu tenho cara de montanha para você ficar me escalando? Vá dormir lá fora."
(Agora ele fica miando.)
Sarrus, Sarrus
Não me deixa dormir.
Capítulo II
Fomos informadas, cinco ou seis dias depois, que Sarrus tinha irmãos. Aimodios, onde? E chovia, sempre, como em todo verão ainda não atingido pelas tão tão anunciadas mudanças climáticas, nesse lugarzinho escondido no meio da soja. Enfim, tô viajando. (Literalmente, dependendo do ponto de vista.)
Voltas e voltas ao redor dos quarteirões com lanterna, ração e Meggie. Meggie pra que? Sei lá, ela segue a gente.
...
(Tô dando um tempo para você imaginar as cenas e sentir com mais profundidade a história. Não chore ainda.)
Hoje, voltando com minha mãe do mercado, resolvemos dar mais uma volta. Fareja, fareja, fareja, a-há! Três crianças negras, brincando em frente a uma casa abandonada. Desprezadas pelo mundo assim como milhões da nossa própria espécie.
Capítulo III
Na casa abandonada, onde antes funcionava um Posto de Saúde, fizeram de um cano sua toca. Impenetrável, para alguém do meu tamanho. O portão de trás (a casa tinha saída para duas ruas) estava escancarado. Minha estratégia (?) basearia-se nele. Hum, é claro, poderia também usar sua fome para manipulá-los! Brilhante! Inédito! Caberia mais sagacidade numa mente só?
Na verdade fiz só botar comida lá na frente, dar a volta e bloquear a entrada do cano com um tijolo. Foi puro acaso um deles ter se desesperado e tentado entrar lá a qualquer custo. A mente sagaz aqui catou o gato e pôs na caixa de transporte. Foi mordida até. E xingada, em miauês.
Os outros dispersaram. Minha mãe alertou que agora que haviam comido, ração não seria eficiente para distrai-los. Achei mais seguro devolver-lhes o abrigo e recuar. O destino do cativo foi o Centro de Reabilitação Felina da casa, vulgo banheiro do lado de fora.
Cerca de meia hora depois, com a caixa e uma porção de frango desfiado, parti para mais a execução de mais um plano infalível.
***
Inimigo à vista! TOQUE DE RECOLHER! Todos de volta à fortaleza!
(Juro que agora não queria fazer essa analogia, mas estou com preguiça então preparem-se para ler aquele episódio da mitologia grega tantas vezes recontado)
O inimigo movimenta-se. De onde foi que tiraram aquele gigante bizarro que nos ameaça? Não importa, não temos força para derrotá-lo. Na pior situação apenas poderemos fugir para as entranhas dessa nossa casa escura. (Foco no rosto dos personagens, música triste, oooô oooô) Alguns minutos se passam, cessam-se os sons exteriores. Estarão seguros agora? Há de se verificar. Uma orelha, outra orelha, focinho, pescoçinho esticado, passos miúdos. Repete-se a última frase. Dois soldados, valentes mas providos de débeis armaduras observam. Não é possível. Foram embora e ainda deixaram-nos presentes? Mantimentos e um monumento curioso. Não, não é confiável. Mas aquele sentimento falou mais alto. Não, não a vaidade, a ostentação exagerada dos próprios defeitos mascarados. Foi aquela mardita dinovo! Aquela fia duma quenga qui mora aqui nesse negoço que os homi chamam di istomgo.
Há! Peguei-os! A que taxa meus batimentos cardiacos aumentavam naqueles instantes que os observava de trás da churrasqueira, através do vidro da janela? Coitados, reflexão era um conceito com o qual não estavam familiarizados. Pensando bem, coitados, mas não por isso.
Orgulhosa, a sequestradora volta para o covil, indo compartilhar uma refeição com seus familiares. Havia vencido pelo silêncio, como sua mãe gostava de ensinar.
Capítulo IV
Olhos que vigiam os menores movimentos prontos para reagir. Transpiram medo. Transpiram ódio. Anseiam a morte tão ardentemente quando desejam viver. Agarram-se a qualquer coisa que se aproxime. Para rasgá-la, perfurá-la, trucidá-la. Para sentir-se protegidos.
Precisava que eles gostassem de mim como uma deles. Para isso, era preciso primeiro fazer parte do ambiente, ser inofensiva, neutra e depois, felina.
Quem convive com gatos por algum tempo, passa a observá-los. O jeito que eles gostam de deitar, de mostrar a barriga quando estão dispostos a fazer amizades, de olhar nos olhos e miar manso para fazer pedidos. De descansar na grama. De brincar com chutes e de enterrar suas fezes. Quem convive com gatos por algum tempo, passa a imitar suas maneiras. É. Não, é sério. Não, minha mãe não age como um gato. Sim, eu sim, as vezes. O que isso significa?! ... O que está tentando insinuar?
Notei que eles gostavam de Sarrus de uma forma natural. Ele já havia me adotado. Seria possível usar esses laços a meu favor? Mas oito dias critalizavam diferenças notáveis entre eles! Oito dias. Dias.
Deitei-me no chão do "Centro de Reabilitação". Sonhei. Não pergunte com o quê - não lembro. O osso do meu rosto doía quando um barulho deles me acordou. Olhavam para mim. Saí e trouxe ração e aquele pestinha do Sarrus. Confortáveis, com a barriga cheia, que comece a interação! "O segredo é não parecer interessada, eles são curiosos e virão por conta própria", foi o preceito que segui. Brinquei a beça com o pequeno que miava e ronronava mordendo meus dedos. Seus irmãos nos observavam como se fossemos uma roda gigante iluminada. Os sons emitidos por Sarrus os empolgava a desbravar. Ao percebê-lo, fiquei imóvel. Controlei a respiração e permaneci fitando o teto. Sutilmente, um deles cheirou meu ombro esquerdo e me lambeu. Minha felicidade era pura. Como aquela que geralmente segue o primeiro beijo.
Prólogo
Acabo de sair do banheiro, nonde passara as últimas horas imitando o sono de um gato.
Capítulo I
Dia de natal, depois do almoço. Meu avô descançava (descançava de que?) numa rede conversando com minha mãe. Eu estava... sei lá, minha memória anda péssima, mas a usando probabilidade como critério, eu estava dormindo. Não. Lavando louça.
"Vitória, corre aqui!"
"Que foi?"
"Olha que fofo!"
De alguma forma um filhote de gato veio parar aqui no quintal. Bem, se fosse para chutar (o motivo, não o gato!), já que a força gravitacional é uma lei da natureza, seria plausível supor que gatos atraem gatos? Nós já tinhamos sete. Me pergunto em quanto tempo teríamos um buraco negro que mia.
Tenho que dizer, adoro gatos, então mesmo se aquele fosse muito feio, aquela barriguinha rosada me conquistaria. Precisava de um nome curto, fofinho e que terminasse em i. Caiti. Sagüi. Ií. Nao. Sarrus! Sim, o da regra. Sim, "termina" em i.
Sarrus, Sarrus
Não me deixa dormir.
"Não gato, eu não sou sua mamãe. Aliás não tenho teta. (Aliás tenho.) Pare, pelamordedeus, de me morder! E eu tenho cara de montanha para você ficar me escalando? Vá dormir lá fora."
(Agora ele fica miando.)
Sarrus, Sarrus
Não me deixa dormir.
Capítulo II
Fomos informadas, cinco ou seis dias depois, que Sarrus tinha irmãos. Aimodios, onde? E chovia, sempre, como em todo verão ainda não atingido pelas tão tão anunciadas mudanças climáticas, nesse lugarzinho escondido no meio da soja. Enfim, tô viajando. (Literalmente, dependendo do ponto de vista.)
Voltas e voltas ao redor dos quarteirões com lanterna, ração e Meggie. Meggie pra que? Sei lá, ela segue a gente.
...
(Tô dando um tempo para você imaginar as cenas e sentir com mais profundidade a história. Não chore ainda.)
Hoje, voltando com minha mãe do mercado, resolvemos dar mais uma volta. Fareja, fareja, fareja, a-há! Três crianças negras, brincando em frente a uma casa abandonada. Desprezadas pelo mundo assim como milhões da nossa própria espécie.
Capítulo III
Na casa abandonada, onde antes funcionava um Posto de Saúde, fizeram de um cano sua toca. Impenetrável, para alguém do meu tamanho. O portão de trás (a casa tinha saída para duas ruas) estava escancarado. Minha estratégia (?) basearia-se nele. Hum, é claro, poderia também usar sua fome para manipulá-los! Brilhante! Inédito! Caberia mais sagacidade numa mente só?
Na verdade fiz só botar comida lá na frente, dar a volta e bloquear a entrada do cano com um tijolo. Foi puro acaso um deles ter se desesperado e tentado entrar lá a qualquer custo. A mente sagaz aqui catou o gato e pôs na caixa de transporte. Foi mordida até. E xingada, em miauês.
Os outros dispersaram. Minha mãe alertou que agora que haviam comido, ração não seria eficiente para distrai-los. Achei mais seguro devolver-lhes o abrigo e recuar. O destino do cativo foi o Centro de Reabilitação Felina da casa, vulgo banheiro do lado de fora.
Cerca de meia hora depois, com a caixa e uma porção de frango desfiado, parti para mais a execução de mais um plano infalível.
***
Inimigo à vista! TOQUE DE RECOLHER! Todos de volta à fortaleza!
(Juro que agora não queria fazer essa analogia, mas estou com preguiça então preparem-se para ler aquele episódio da mitologia grega tantas vezes recontado)
O inimigo movimenta-se. De onde foi que tiraram aquele gigante bizarro que nos ameaça? Não importa, não temos força para derrotá-lo. Na pior situação apenas poderemos fugir para as entranhas dessa nossa casa escura. (Foco no rosto dos personagens, música triste, oooô oooô) Alguns minutos se passam, cessam-se os sons exteriores. Estarão seguros agora? Há de se verificar. Uma orelha, outra orelha, focinho, pescoçinho esticado, passos miúdos. Repete-se a última frase. Dois soldados, valentes mas providos de débeis armaduras observam. Não é possível. Foram embora e ainda deixaram-nos presentes? Mantimentos e um monumento curioso. Não, não é confiável. Mas aquele sentimento falou mais alto. Não, não a vaidade, a ostentação exagerada dos próprios defeitos mascarados. Foi aquela mardita dinovo! Aquela fia duma quenga qui mora aqui nesse negoço que os homi chamam di istomgo.
Há! Peguei-os! A que taxa meus batimentos cardiacos aumentavam naqueles instantes que os observava de trás da churrasqueira, através do vidro da janela? Coitados, reflexão era um conceito com o qual não estavam familiarizados. Pensando bem, coitados, mas não por isso.
Orgulhosa, a sequestradora volta para o covil, indo compartilhar uma refeição com seus familiares. Havia vencido pelo silêncio, como sua mãe gostava de ensinar.
Capítulo IV
Olhos que vigiam os menores movimentos prontos para reagir. Transpiram medo. Transpiram ódio. Anseiam a morte tão ardentemente quando desejam viver. Agarram-se a qualquer coisa que se aproxime. Para rasgá-la, perfurá-la, trucidá-la. Para sentir-se protegidos.
Precisava que eles gostassem de mim como uma deles. Para isso, era preciso primeiro fazer parte do ambiente, ser inofensiva, neutra e depois, felina.
Quem convive com gatos por algum tempo, passa a observá-los. O jeito que eles gostam de deitar, de mostrar a barriga quando estão dispostos a fazer amizades, de olhar nos olhos e miar manso para fazer pedidos. De descansar na grama. De brincar com chutes e de enterrar suas fezes. Quem convive com gatos por algum tempo, passa a imitar suas maneiras. É. Não, é sério. Não, minha mãe não age como um gato. Sim, eu sim, as vezes. O que isso significa?! ... O que está tentando insinuar?
Notei que eles gostavam de Sarrus de uma forma natural. Ele já havia me adotado. Seria possível usar esses laços a meu favor? Mas oito dias critalizavam diferenças notáveis entre eles! Oito dias. Dias.
Deitei-me no chão do "Centro de Reabilitação". Sonhei. Não pergunte com o quê - não lembro. O osso do meu rosto doía quando um barulho deles me acordou. Olhavam para mim. Saí e trouxe ração e aquele pestinha do Sarrus. Confortáveis, com a barriga cheia, que comece a interação! "O segredo é não parecer interessada, eles são curiosos e virão por conta própria", foi o preceito que segui. Brinquei a beça com o pequeno que miava e ronronava mordendo meus dedos. Seus irmãos nos observavam como se fossemos uma roda gigante iluminada. Os sons emitidos por Sarrus os empolgava a desbravar. Ao percebê-lo, fiquei imóvel. Controlei a respiração e permaneci fitando o teto. Sutilmente, um deles cheirou meu ombro esquerdo e me lambeu. Minha felicidade era pura. Como aquela que geralmente segue o primeiro beijo.
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