Quando é assim, eu costumava anotar sonhos nuns cadernos.Um dia talvez eu não possua mais esses cadernos, então vou já escrever como se eles não mais existissem. Naquela época que eu tinha aqueles cadernos (que devem estar por aí, por sinal) era pouco organizado e eu sentia dor para escrever, se bem que agora estou sentido dor também, nas costas, porque corrigir ou não a postura dói. Sério, horrível, você tenta ser direitinha sofre mais do que ficar pra trás. Enfim, achei organizado e neat escrever aqui no blog meus sonhos.
Semana passada foi daquelas que eu prefiro viver os sonhos. Quando você está para acordar e as imagens dão a sensação de serem reais, apesar de você ter noção de que não são. Apesar desses sonhos darem umas sensações boas, eu não costumo lembrar e não sinto que tenham conteúdos muito complexos e misteriosos. O sonho de hoje foi desses mais enigmáticos, que eu prefiro.
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Havia um casal de idosos, que eram Tarsísio Meira e Glória Menezes, o casal amor da Globo, não sei hoje qual é a fama deles, mas na minha época eles eram o exemplo canônico de fofice. Bem, ele também era ao mesmo tempo Milton Nascimento, e ela era ao mesmo tempo minha avó. Talvez eles estivessem gravando um filme, ou era a história deles mesmo. A mulher tinha passado por uma situação de quase morrer e estava muito desmotivada com a vida, mas ele era visivelmente apaixonado por ela e fazia muitas graças para animá-la. Inclusive ele se perfumou (eu acho que) com gergelim (ou alguma coisa pouco comum) que era um cheiro que ela gostava. Ele realmente se sentia muito atraído por ela, era muito bonito vê-los. Finalmente, a mulher se animou e correspondeu aos gestos dele e então eles se tornaram como santos ou deuses, pois eu passei a vê-los de frente, em pé, lado a lado, talvez nus, ou com roupas muito sutis, pois eu podia ver seus corpos e estes eram corpos de idosos, mas com características exageradas (ou seja, como dois ídolos).
Me senti frustrada, ou com inveja de não ser os dois, e constatei que então eu deveria ser uma criança (apesar de o meu corpo ser de adulta) e que só me restava vagar por aí. Saí da casa onde estava cambaleando (não sei porque cambaleando, talvez para me sentir como um cachorro) e assim cheguei até a praia (era uma praia urbana, da própria cidade onde estava). Na beira da água, notei que havia cristais, e fui recolhendo alguns menores, pois havia homens coletando os cristais grandes para vender e me olhavam com hostilidade.
Continuei andando e em breve estava descendo uma rua com alguns cristais ainda nas mãos. Uma mulher vestida em um terno feminino roxo, abriu um grande guarda-chuva e indicou que eu ficasse também sob ele. Eu ainda andava a esmo com passos frouxos. De repente entrei em um prédio e lá havia uma pequena reunião na qual a banda Legião Urbana tocava sentada no chão com algumas crianças pequenas ao redor assistindo. Mais atrás havia pessoas adolescentes ou adultas jovens também. Como eu me considerava criança, fui sentar desengonçadamente com as criancinhas, mesmo sabendo que as demais pessoas me considerariam rude. O Renato Russo era uma mistura dele com o Cazuza e mais alguém que não reconheço. Senti-me atraída por ele, e planejava encostrar nele a qualquer custo depois da apresentação, mesmo que fosse apenas o cotovelo.
Em algum momento me passou pela cabeça que já eu estava há muito tempo no mesmo lugar e que deveria voltar à minha caminhada em breve. Pensei, por outro lado, que estava sentindo-me bem lá e que não fazia mal permanecer. Depois aparentemente me enturmei com as pessoas jovens e acabei num banheiro transando com uma moça que não tinha canal vaginal. E como todo sonho que vira putaria, fim.
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Eu tinha incluído aqui no final uma sugestão de incluir um comentário sobre uma carta de meu amigo para uma pessoa querida para ele. Dessas pessoas queridas que preferem não falar conosco. Pois é, amigo, não somos tão diferentes. Ele veio até minha casa hoje, pois eu disse que precisava de um abraço. Quando ele chegou, eu já não estava tão apurada, mas "estranhamente eufórica", expressão minha.
Eu tinha algum comentário também sobre as sandálias de Djavan, mas creio ter perdido a ligação.
Tenho uma ideia muito preciosa para mim, que eu preferiria não escrever aqui. Seria melhor comê-la, assim como uma prima minha fez com uma carta que eu a escrevi e cujo conteúdo ela queria muito que se torna-se real. Enfim, espero banalizá-la agora.
Eu sofro de uma paixão. Tem paixões que alegram e são saudáveis, eu acredito. Essa minha eu não tenho perspectiva de realização. Não saberia nem imaginar que situação improvável deveria acontecer para que eu me sinta saciada. Isso nem tanto porque não sou correspondida, porque parece que sou, o que, aprendi, não basta. Essa paixão que me deixou estranhamente eufórica. Todo o tempo em que não esperava uma resposta concreta eu me sentia como o casal do meu sonho, atemporal e divina. Basta uma resposta oblíqua para vir o medo de rejeição. Esse é meu estado oficial, quer ele fale ou não comigo; eu sou rejeitada. Meu reino são os trapos podres e restos de frutas.
Parece que ele devolve ou tira minha vitalidade quando quer. A ideia preciosa (pensando bem, todas as coisas que eu escrevo se tornam preciosas para mim, eu costumo ficar bem contente com meus escritos) não cabe uma frase, mas vamos lá. Existem alguns momentos maravilhosos que a existência dele faz surgir e que eu não teria conhecido de outro modo. Por esses momentos é que essa paixão vale a pena. Porém, com um ou dois artifícios, eu fico só com os momentos e não com a rejeição (ou seja, foi e é e será necessário muito esforço ainda): a paixão é minha, os sentimentos e sonhos são meus, é minha a capacidade de ser arrebatada. Ele está (ou não) em sua casa, seguindo sua vida e eu agradeço sua contribuição à minha. Mas a verdadeira pessoa pela qual eu estou apaixonada sou eu. Eu sou a pessoa que passa a tarde estranhamente eufórica cantando e descrevendo sonhos e achando as sandálias de Djavan uma graça! Perdoem-me as inimigas, mas eu sou apaixonante.
quarta-feira, 16 de setembro de 2015
domingo, 23 de agosto de 2015
Livros
2026
Elisabeth Strout - Olive Kitteridge
Kurt Vonnegut - La colazione dei campioni
Daniel Keyes - Fiori per Algernon
Marco Rovelli - Non siamo capolavori
Frank Verstraete, Céline Broeckaert - Why nobody understands quantum physics
Marco Rovelli - La parte del fuoco
Akinari Asakura - Gli ultimi sei
Giacomo Mauretto - Italiani veri
Pedro Funari, Francisco Noelli - Pré-história do Brasil
Julio Cesar de Mello e Souza (Malba Tahan) - L'uomo che sapeva contare
2025
Helmut E. Luck - Breve storia della psicologia
Octavia E. Butler - La parabola del seminatore
Italo Calvino - Le città invisibili
Liu Cixin - The three-body problem
2024
Hanya Yanagihara - Il popolo degli alberi
Kurt Vonnegut - Barbablù
Hiro Arikawa -
Cronache di un gatto viaggiatore
Kurt Vonnegut - Le sirene di Titano
Article 19 and Catnip - How the internet really works
2020
2023
Il mago dei numeri
Storia sociale del clima
L'era del petrolio - Leonardo Maugeri
Kurt Vonnegut - Perle ai porci
Guido Barbujani - L'invenzione delle razze
Cathy O'Neil - Weapons of Math Destruction
2022
James Bridle - New Dark Ages
José Saramago - Cecità
Stanislaw Lem - Solaris
Enrico Giusti - Ipotesi sulla natura degli oggetti matematici
2021
Kurt Vonnegut - Slaughter House 5
Michela Fontana - Matteo Ricci
2020
Stefan Cunha Ujvari - História do século XX pelas descobertas da medicina
2015 - 2019
Haruki Murakami - 1Q84 vol. 1 & 2
Jung Chang - Cisnes selvagens
Aldous Huxley - Admirável mundo novo
Arthur C. Clarke - Encontro com Rama
Arthur C. Clarke - As fontes do paraíso
Arthur C. Clarke - O fim da infância
Oliver Sacks - Tio Tungstênio
Mia Couto - Terra Sonâmbula
Umberto Eco - O nome da rosa
Bronislaw Malinovski - Sexo e Repressão na Sociedade Selvagem
Ernest Cline - Jogador número 1
Jaime Pinsky - As Primeiras Civilizações
Vários autores - A História dos EUA
R L Heilbroner - Introdução a história das ideias econômicas
Pedro Paulo Funari - Pré-história do Brasil
Orhan Pamuk - Meu nome é vermelho
Ray Bradbury - Fahrenhein 451
Varios autores - Sessualità, erotismo, amore
Geoffrey Blainey - Uma breve historia do cristianismo
Henri Bergson - Matéria e Memória
* * * * * *
Livros de 2018 para terminar de ler
Darcy Ribeiro - O Povo Brasileiro
Claude Levi-Strauss - Estrutura Elementar do Parentesco
Maurice Merleau Ponty - Fenomenologia da Percepção
Vários autores - Prime nella vita comune
Paul Feyerabend - Contra o método
Willian P Young - A cabana
Betty Mindlin - Moqueca de maridos
Clarice Lispector - A maçã no escuro
Henri Bergson - Matéria e memória
Roderick M. Chisholm - Teoria do conhecimento
Paulo Freire - Pedagogia do oprimido
Jhon Chadwick - A decifração do linear B
Aminatta Forna - Jardim de mulheres
Alfredo Marien - Era um poaieiro
Graça Pina de Morais - A mulher do chapéu de palha
Tatiana Roque - História da Matemática
B. F. Skinner - Walden Two
Arthur C. Clarke - 2001 Uma Odisseia no Espaço
Lakoff & Nuñez - Where Mathematics comes from
* * * * *
Darcy Ribeiro - O Povo Brasileiro
Claude Levi-Strauss - Estrutura Elementar do Parentesco
Maurice Merleau Ponty - Fenomenologia da Percepção
Vários autores - Prime nella vita comune
Paul Feyerabend - Contra o método
Willian P Young - A cabana
Betty Mindlin - Moqueca de maridos
Clarice Lispector - A maçã no escuro
Henri Bergson - Matéria e memória
Roderick M. Chisholm - Teoria do conhecimento
Paulo Freire - Pedagogia do oprimido
Jhon Chadwick - A decifração do linear B
Aminatta Forna - Jardim de mulheres
Alfredo Marien - Era um poaieiro
Graça Pina de Morais - A mulher do chapéu de palha
Tatiana Roque - História da Matemática
B. F. Skinner - Walden Two
Arthur C. Clarke - 2001 Uma Odisseia no Espaço
Lakoff & Nuñez - Where Mathematics comes from
* * * * *
Livros que eu gostaria de ler
* * * * *
* * * * *
Extras:
Arthur Schopenhauer - O mundo como vontade e representação
Arthur Schopenhauer - O mundo como vontade e representação
Franklin Leopoldo e Silva - Descartes: a metafísica da modernidade
Immanuel Kant - Crítica da razão pura
Claude Levì-Strauss - A oleira ciumenta
Thomas Hobbes - O leviatã
Donald Woods Winnicott - Natureza Humana
Carl Jung - Memórias, sonhos e reflexões
Vilém Flusser - A história do diabo
Vilém Flusser - Filosofia da caixa preta
Charles-Pierre Baudelaire - Pequenos poemas em prosa
James Joyce - Ulisses
Immanuel Kant - Crítica da razão pura
Claude Levì-Strauss - A oleira ciumenta
Thomas Hobbes - O leviatã
Donald Woods Winnicott - Natureza Humana
Carl Jung - Memórias, sonhos e reflexões
Vilém Flusser - A história do diabo
Vilém Flusser - Filosofia da caixa preta
Charles-Pierre Baudelaire - Pequenos poemas em prosa
James Joyce - Ulisses
sábado, 6 de junho de 2015
Sonhos Lúcidos e fenômenos associados
Eu estava me preparando para ir criar o texto para o trabalho final de uma matéria, mas estou ouvindo o Clube da Esquina e não tive coragem de parar o álbum na metade. Então me propus relatar os dois sonhos lúcidos que tive nas últimas três semanas. (Não deixa de ser exercício literário!) Esses sonhos são importantes para mim, pois acredito que foram meus primeiros sonhos lúcidos, ou pelo menos, os primeiros que pude detectar. Eu não estava tentando tê-los, mas aparentemente meus hábitos noturnos favoreceram seu surgimento. Na internet uma das técnicas mais simples que encontrei tratava-se de interromper o sono após um intervalo e voltar a dormir enquanto realiza alguns movimentos sutis e repetitivos. No meu caso, acontece que frequentemente acordo para urinar durante a noite, ou acordo de manhã com o despertador e desisto de levantar (quem nunca?).
O primeiro sonho. Nota-se que não percebi que estava tendo um sonho lúcido até a parte final, onde percebe-se que posso ser bastante teimosa. Aliás, ele foi tornando-se mais claramente lúcido (gostei da expressão "claramente lúcido") ao poucos. Eu estava numa versão do Metrô Jabaquara e havia um posto de saúde naquela região e um translado gratuito entre o posto e a estação. Fui sem motivos da estação ao posto e lá esperava a van para voltar, novamente sem ter porquê. Era noite e me lembrava de minha avó (ela não apareceu visivelmente no sonho, mas era como se estive lá o tempo todo). Havia no posto um aparato como aquelas cadeiras de subir montanhas para esquiar e este era branco.
Fui para a rua. Dei-me conta que poderia encher o sonho de amigos e logo haviam várias pessoas conhecidas por perto. Não conversei com nenhum deles, mas invoquei a presença de [...]. Ele apareceu, mas eu não podia controlar seu rosto, era o rosto de outro rapaz. Ficamos de mãos dadas no meio da rua, entre as pessoas passando. Fiquei muito feliz por estarmos juntos. Ele então me disse que estaria sempre por perto, desde que eu o chamasse.
Dessa cena, fui para outra em que estava deitada no meu próprio quarto e me levantava para ir ao banheiro. Já estava prestes a acordar, de forma que me percebia deitada novamente, antes de conseguir urinar. Então a cena se repetia sem que eu chegasse ao banheiro. Percebi que estava dormindo mas que também estava com a bexiga cheia. Fiz um último esforço no sonho para chegar até o banheiro. Nessa parte, os trechos da casa pelos quais passava eram muito detalhados e de acordo com a realidade. Porém quanto mais perto chegava do banheiro, mais a imagem se distorcia (como falhas em um filme de rolo). Lá estava eu de novo em minha cama. Fui então de fato ao banheiro e voltei rapidamente a cama. Demorei alguns segundos para acreditar que dessa vez tinha sido real. Mas não voltei a dormir e minha bexiga estava tranquila.
~~~~~~~~
Antes do segundo sonho eu havia levantado-me, ido a padaria, comido pão e voltado para a cama. Enquanto ainda não estava dormindo, comecei a visualizar (imaginar, e não, ver) uma cabeça feminina na frente de uma paisagem. Ela falava coisas que não entendia, mas resolvi prestar atenção. Era uma espécie de apresentadora, hostess ou interface. (Eu ainda estava acordada).
O segundo sonho. Prólogo: Cheguei a uma casa desconhecida. Havia uma movimentação de pessoas, parentes minhas, deveria estar para acontecer uma festa. Apesar das limitações do sonho, este parecia real, isto é, eu tinha a sensação de estar desperta. Eu soube que podia controlar o que ia acontecer, que aquelas pessoas se comportariam mais como bonecos (ou seja, que elas não poderiam interagir ou brigar comigo). Então resolvi tocar os seios de [...] (não a mesma pessoa [...] do outro sonho). Desejei tocá-los porque ela era mãe, foi o pensamento que me ocorreu. Quando me aproximava dela, seus seios ganhavam cristas, como de galos, ou verrugas, e de fato, quando os toquei eram sacos de pedras. Entendi que nem mesmo em sonho eu ficava livre de restrições, havia em mim uma culpa forte por desejar aquilo.
Lembro-me de depois de vagar pelos cômodos da casa e sentar numa cadeira. Eventualmente decidi sair de lá, "voltar para a realidade comum", foi o que pensei. Pus a mão no encosto de uma cadeira para ajudar a me levantar. Olhei para minha mão no encosto. A imagem estava duplicada, embaçada. Desejei sair mas não sabia como. Senti medo de não voltar. Fui para a cozinha, com esperança que fosse a cozinha da minha casa, mas não era. Não conheço aquele lugar. A imagem voltou a falhar (como um DVD riscado) e acordei sacudindo a cabeça. Fiquei alguns segundos me assegurando de estar em casa e senti muito alívio.
~~~~~~~~
Mais tarde comparei essa possibilidade de sonho lúcido com os desejos que se consegue da lâmpada de um gênio mal. Eventualmente ele realiza seus desejos, mas não de uma forma agradável. Aparace quem você quer, com o rosto de outra pessoa. Você escolhe ir para a cozinha mas é uma cozinha estranha.
Talvez seja útil deixar uma dica, que talvez não sirva muito, mas a realidade "de fato" parece ter contornos mais firmes. Os objetos e pessoas permanecem. Nas realidades de sonho, quando olho fixamente para alguma coisa, ou não vejo detalhadamente ou a coisa se transforma.
E quando a gente não consegue acordar? Isso já aconteceu com vocês?
Um terceiro sonho. Este não foi um sonho lúcido (porém eu soube que estava dormindo), mas sonhei que alucinava. Tem sido um tanto frequente para mim, ano passado e este, ter sonhos em que estou deitada, quase na mesma posição que me deitei, no mesmo lugar em que dormi. Como se eu sonhasse que de repente acordei. Não é raro que esses sonhos tenham um teor sexual forte. Quando percebo que posso estar dormindo, tento me mexer e não consigo (acredito que seja o que chamam de paralisia do sono).
Nesse dia particular, (durante o sonho) eu abria os olhos e via no braço do sofá o rosto de um gato. Fechava os olhos para evitar essa imagem mas ela permanecia lá ao abri-los. Senti medo por estar alucinando, e acredito que foi o medo de alucinar de fato que me trouxe esse sonho. Acho que o som dos ônibus na rua transformou-se, no sonho, num rádio mal sintonizado através do qual um homem me dava instruções em inglês. Fiquei muito aliviada em perceber que não conseguia distinguir as instruções e, portanto, não poderia obedecê-las.
~~~~~~~
Em abril/maio deste ano tive duas alucinações visuais (má-interpretações) enquanto desperta (não próximas de dormir e acordar). Numa delas, eu estava conversando com um amigo mas quando olhei para ele, tinha o rosto de outra pessoa. Fechei os olhos e disse para mim mesma que aquilo não era possível, mas quando olhei novamente, ainda era o rosto errado. Outro dia, estava com esse amigo novamente, olhei para o braço dele, seu braço estava muito menor do que o normal, como se tivesse magicamente diminuído. Fechei os olhos e me pus a convencer-me que aquele era um truque de perspectiva, que na verdade, eu estava olhando para o seu pulso e não para seu cotovelo e que seu braço na verdade era parte de sua mão, a parte visível do meu ponto de vista. Disse tudo isso e abri os olhos, a toa. O braço continuava diminuto. Alguns instantes depois o rapaz o moveu e as coisas voltaram ao normal.
Há alguns dias percebi vozes (não tive a sensação de ouvi-las, eram como pensamentos que eu não tinha pensado), um pouco antes de dormir. Ano passado, passou um carro na rua, a noite, enquanto eu estava deitada para dormir. Eu estava tentando ouvir vozes. O carro passou e o barulho que ele fez se transformou em um gemido. Não tentei ouvir nada desde então (fiquei com muito medo).
O primeiro sonho. Nota-se que não percebi que estava tendo um sonho lúcido até a parte final, onde percebe-se que posso ser bastante teimosa. Aliás, ele foi tornando-se mais claramente lúcido (gostei da expressão "claramente lúcido") ao poucos. Eu estava numa versão do Metrô Jabaquara e havia um posto de saúde naquela região e um translado gratuito entre o posto e a estação. Fui sem motivos da estação ao posto e lá esperava a van para voltar, novamente sem ter porquê. Era noite e me lembrava de minha avó (ela não apareceu visivelmente no sonho, mas era como se estive lá o tempo todo). Havia no posto um aparato como aquelas cadeiras de subir montanhas para esquiar e este era branco.
Fui para a rua. Dei-me conta que poderia encher o sonho de amigos e logo haviam várias pessoas conhecidas por perto. Não conversei com nenhum deles, mas invoquei a presença de [...]. Ele apareceu, mas eu não podia controlar seu rosto, era o rosto de outro rapaz. Ficamos de mãos dadas no meio da rua, entre as pessoas passando. Fiquei muito feliz por estarmos juntos. Ele então me disse que estaria sempre por perto, desde que eu o chamasse.
Dessa cena, fui para outra em que estava deitada no meu próprio quarto e me levantava para ir ao banheiro. Já estava prestes a acordar, de forma que me percebia deitada novamente, antes de conseguir urinar. Então a cena se repetia sem que eu chegasse ao banheiro. Percebi que estava dormindo mas que também estava com a bexiga cheia. Fiz um último esforço no sonho para chegar até o banheiro. Nessa parte, os trechos da casa pelos quais passava eram muito detalhados e de acordo com a realidade. Porém quanto mais perto chegava do banheiro, mais a imagem se distorcia (como falhas em um filme de rolo). Lá estava eu de novo em minha cama. Fui então de fato ao banheiro e voltei rapidamente a cama. Demorei alguns segundos para acreditar que dessa vez tinha sido real. Mas não voltei a dormir e minha bexiga estava tranquila.
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Antes do segundo sonho eu havia levantado-me, ido a padaria, comido pão e voltado para a cama. Enquanto ainda não estava dormindo, comecei a visualizar (imaginar, e não, ver) uma cabeça feminina na frente de uma paisagem. Ela falava coisas que não entendia, mas resolvi prestar atenção. Era uma espécie de apresentadora, hostess ou interface. (Eu ainda estava acordada).
O segundo sonho. Prólogo: Cheguei a uma casa desconhecida. Havia uma movimentação de pessoas, parentes minhas, deveria estar para acontecer uma festa. Apesar das limitações do sonho, este parecia real, isto é, eu tinha a sensação de estar desperta. Eu soube que podia controlar o que ia acontecer, que aquelas pessoas se comportariam mais como bonecos (ou seja, que elas não poderiam interagir ou brigar comigo). Então resolvi tocar os seios de [...] (não a mesma pessoa [...] do outro sonho). Desejei tocá-los porque ela era mãe, foi o pensamento que me ocorreu. Quando me aproximava dela, seus seios ganhavam cristas, como de galos, ou verrugas, e de fato, quando os toquei eram sacos de pedras. Entendi que nem mesmo em sonho eu ficava livre de restrições, havia em mim uma culpa forte por desejar aquilo.
Lembro-me de depois de vagar pelos cômodos da casa e sentar numa cadeira. Eventualmente decidi sair de lá, "voltar para a realidade comum", foi o que pensei. Pus a mão no encosto de uma cadeira para ajudar a me levantar. Olhei para minha mão no encosto. A imagem estava duplicada, embaçada. Desejei sair mas não sabia como. Senti medo de não voltar. Fui para a cozinha, com esperança que fosse a cozinha da minha casa, mas não era. Não conheço aquele lugar. A imagem voltou a falhar (como um DVD riscado) e acordei sacudindo a cabeça. Fiquei alguns segundos me assegurando de estar em casa e senti muito alívio.
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Mais tarde comparei essa possibilidade de sonho lúcido com os desejos que se consegue da lâmpada de um gênio mal. Eventualmente ele realiza seus desejos, mas não de uma forma agradável. Aparace quem você quer, com o rosto de outra pessoa. Você escolhe ir para a cozinha mas é uma cozinha estranha.
Talvez seja útil deixar uma dica, que talvez não sirva muito, mas a realidade "de fato" parece ter contornos mais firmes. Os objetos e pessoas permanecem. Nas realidades de sonho, quando olho fixamente para alguma coisa, ou não vejo detalhadamente ou a coisa se transforma.
E quando a gente não consegue acordar? Isso já aconteceu com vocês?
Um terceiro sonho. Este não foi um sonho lúcido (porém eu soube que estava dormindo), mas sonhei que alucinava. Tem sido um tanto frequente para mim, ano passado e este, ter sonhos em que estou deitada, quase na mesma posição que me deitei, no mesmo lugar em que dormi. Como se eu sonhasse que de repente acordei. Não é raro que esses sonhos tenham um teor sexual forte. Quando percebo que posso estar dormindo, tento me mexer e não consigo (acredito que seja o que chamam de paralisia do sono).
Nesse dia particular, (durante o sonho) eu abria os olhos e via no braço do sofá o rosto de um gato. Fechava os olhos para evitar essa imagem mas ela permanecia lá ao abri-los. Senti medo por estar alucinando, e acredito que foi o medo de alucinar de fato que me trouxe esse sonho. Acho que o som dos ônibus na rua transformou-se, no sonho, num rádio mal sintonizado através do qual um homem me dava instruções em inglês. Fiquei muito aliviada em perceber que não conseguia distinguir as instruções e, portanto, não poderia obedecê-las.
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Em abril/maio deste ano tive duas alucinações visuais (má-interpretações) enquanto desperta (não próximas de dormir e acordar). Numa delas, eu estava conversando com um amigo mas quando olhei para ele, tinha o rosto de outra pessoa. Fechei os olhos e disse para mim mesma que aquilo não era possível, mas quando olhei novamente, ainda era o rosto errado. Outro dia, estava com esse amigo novamente, olhei para o braço dele, seu braço estava muito menor do que o normal, como se tivesse magicamente diminuído. Fechei os olhos e me pus a convencer-me que aquele era um truque de perspectiva, que na verdade, eu estava olhando para o seu pulso e não para seu cotovelo e que seu braço na verdade era parte de sua mão, a parte visível do meu ponto de vista. Disse tudo isso e abri os olhos, a toa. O braço continuava diminuto. Alguns instantes depois o rapaz o moveu e as coisas voltaram ao normal.
Há alguns dias percebi vozes (não tive a sensação de ouvi-las, eram como pensamentos que eu não tinha pensado), um pouco antes de dormir. Ano passado, passou um carro na rua, a noite, enquanto eu estava deitada para dormir. Eu estava tentando ouvir vozes. O carro passou e o barulho que ele fez se transformou em um gemido. Não tentei ouvir nada desde então (fiquei com muito medo).
quinta-feira, 9 de abril de 2015
Diariabilidade
Alô, boa noite. Primeiro deixa eu ir buscar um aperitivo lá na geladeira. Pensando bem, não sei ser boêmia. Hoje cedo pensei que seria legal se eu cultivasse o hábito de escrever todo dia. Escrever qualquer coisa, apenas para praticar. Tenho já vários temas para desenvolver, digamos, lição de casa. Primeiro, quero resenhar o livro Estrutura das Revoluções Científicas, do Thomas Kuhn, para uma matéria. Também quero escrever sobre virgindade, criatividade, e o olhar de algumas pessoas, e esta frase foi bem mais uma agenda mental do que... o que bem estou escrevendo? Só escrevendo, lembre-se. Mais do que ser criativa e expressar seja lá o que eu gostaria de expressar, preciso adquirir linguagens. O que tenho escrito até aqui está carregado de sentimentos meus e neste instante meus olhos ardem daquele jeito de quando a pessoa está prestes a chorar mais não chora e isso é porque por mais que eu tenha dito o que queria, você não entendeu.
~~~~~
Eu não sou uma pessoa inteira.
~~~~~
Um texto pode ser uma resenha, uma carta, um ensaio, uma dissertação, um e-mail. Um texto de blog. Um texto de blog parece-me mais fácil, mais livre. E escrever a mão ou digitar me impõe intuições de estilo diferentes. Por exemplo, estou digitando como se estivesse conversando com alguém. (Uma conversa informal). É fácil escrever assim, mais me angustio em pensar que não estou escrevendo para nenhuma pessoa específica. Você pode ler e gostar, ou pode não fazer diferença. Não tenho exatamente medo da sua opinião sobre ele. O fato é que ninguém está ai. Eu estou sozinha.
Tem uma banda tocando no meu quarto. Eu não estudo mais música. Meu pulso direito dói. Minha garganta, minhas costas doem. Porque dói não ser nada e se esforçar para ser alguma coisa. De fato, sou uma esponja. A banda me invade, e é bom, eu quero. A vizinha canta e me invade, e é ruim. As pessoas falam ao mesmo tempo, e eu deixo me invadir as vezes, as vezes demais. Eu espero entrar nelas também. Posso introduzir um assunto. Posso reescrever, mas talvez não dê vontade. Vou explicar porque não gosto de estudar. Me faz sentir que não sou suficiente ainda. Sim, sempre há o que se estudar. Estou dizendo suficiente para simplesmente ter direito de existir e ser deixada em paz. Não era esse o assunto. Era 'o olhar de algumas pessoas'.
Não sei o que você chama de paixão. Das coisas terríveis do mundo, uma delas é que eu nunca vou realmente entender como você se sente. É um milagre, eu repito em todo lugar, que duas pessoas se encontrem e conversem, aparentemente, sobre o mesmo assunto. Estou rindo agora porque me lembrei de uma ocasião em que duas amigas conversavam comigo e minha mãe. Eu estava quieta e esperava uma oportunidade de falar. Não sei se não me deram a oportunidade ou se não a reinvindiquei. Eu era jovem. Ri de novo, pois sou jovem. Bem, observava, e eram dois monólogos alternados. Elas queriam falar, ouvir a si mesmas e era só isso. Eu me senti usada. (Mas foi só como me senti, não foi o que elas fizeram comigo).
Ah sim, a paixão. O olhar de paixão de algumas pessoas. Foi assim, há dois anos me apaixonei, do tipo de perder a fome (perdi três quilos numa semana). Altos e baixos, mais baixos que altos foram. Mas esse não é o problema aqui agora. A pergunta é: qual é o olhar de paixão? São vários, porque paixões são várias. Mas esse tem um poder cativante que eu proporei mais tarde. Deve ser bem específico, pois se não, me apaixonaria mais vezes. Deixa eu dar mais contexto. Quando estou interessada em alguém, em geral também estou por várias outras pessoas. Mas nem todas as vezes eu chamo de paixão. E há dois anos atrás aprendi que paixão não é intrinsecamente boa, aliás dói bastante. Mas eu não tinha me apaixonado antes? Fui pegar o sarampo depois de adulta? Não, mas o contexto estava mais complexo. Fui pega desprevenida numa friagem boa. (É sarampo ou resfriado?)
Me apaixonei de novo. Por que, com essa pessoa diferente, que não me machucou, sinto-me mal como da última vez? Hoje reparei numa coincidência na maneira como me interessei por eles. Eles me viram antes que eu os visse e se interessaram por mim. Me conheceram já com aquele olhar. Eu me senti amada sem ter que me esforçar por isso. Lembra qual foi a primeira vez que isso me aconteceu? Desculpe pela psicanálise, mas provavelmente foi naquela época remota em que era bebê. Tudo bem, isso é apenas uma hipótese. Vou registrá-la aqui pela utilidade posterior. Se eu decidir que não faz sentido, venho aqui retificar. Aprendi a palavra retificar no 1984. Eu quero uma mãe que não vá embora, e misteriosamente, ela é um homem. Nota: nunca me apaixonei dessa maneira por uma mulher, isso está na minha lista de tarefas.
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Ai, gente. A Groselha. Coisa linda com a Vodka.
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Deixa eu voltar antes que eu esqueça. Não que isso já não tenha acontecido. Fui na cozinha e a Vodka falou por mim. Como é que a pessoa se prepara para representar ela mesma no cinema ou teatro? Me referia a Quero Ser John Malcovich. Ele disse que pensa nisso quanto a pessoa que canta, interpreta canções. Não é ela, mas também não deixa de ser. Disse que faria um mestrado pensando nisso. Possivelmente não mais o veja por isso desejo-lhe sorte.
~~~~~
Voltei. E ontem no concerto, não queria que acabasse. Apesar de não poder sair das poses de pegar na mão e sentar comportado, por que acabar aquilo? Ai que está a obsessão.
Não quero definir muito. Mas não posso deixar de definir alguma coisa. Pelo bem do senso de realidade. (Posso alterar isso.)
A obsessão. Estava ali, no quarto, com um bando de pessoas, um copo e um cigarro ilegal. Não a obsessão, eu. E NINGUÉM ESTÁ AQUI PARA ME VER E TAMBÉM NÃO QUERO QUALQUER PESSOA. Penso em mais coisas, quero elaborar cada frase. É legal, sentir que te reconhecem. Por isso a psicanálise. Para falar de mim e ter a impressão que falo alguma coisa socialmente interessante. Pois é, estava no quarto e gostava das pessoas de lá. Não era eu, era a Vodka. E a Vodka teve uma ideia, mas eu não lembro. Pois é. Estava no quarto. E gostava das pessoas de lá. Quero elas todas no meu quarto, enquanto não estou, e esse é o Cigarro ilegal falando. As pessoas no meu quarto e eu não estou. O Cigarro esqueceu.
Sim! eu queria falar do .... . Posso, por favor, não ser uma pessoa razoável. Vou contar a estória
~~~~~
Eu nunca fui e agora só consigo olhar as outras pessoas. Eu preciso de voz. Literalmente. Eu nem mais falo sobre isso.
Nossa, tá bom já. Penso em continuar porque agora acabou a tensão. Sei o que é só não sei porque. E lembrei do que ele disse. Não, ele não disse. Fui eu. Bem, ele disse que não era ele cantando, mas não deixava de ser. Então é isso. Vou ser o que não deixa de ser eu. Mas não eu. (Tenho um livro para ler. O Ambiente e os Processos de Maturação.) Vou conquistar o desejo de ter a voz linda, potente e nunca vou deixar de ser um nada. Mas não como se as duas coisas se anulassem. Porque há um desejo e ele é realizado. É um desejo sensual, sem nunca chegar a ser sexual. Não muda essencialmente nada mas acontece.
~~~~~
Pronto, estou satisfeita, vou lá interagir. Mesmo com os olhos vermelhos.
~~~~~
Ps. Vou amar minha mãe-homem e procurar uma fonoaudióloga.
~~~~~
Eu não sou uma pessoa inteira.
~~~~~
Um texto pode ser uma resenha, uma carta, um ensaio, uma dissertação, um e-mail. Um texto de blog. Um texto de blog parece-me mais fácil, mais livre. E escrever a mão ou digitar me impõe intuições de estilo diferentes. Por exemplo, estou digitando como se estivesse conversando com alguém. (Uma conversa informal). É fácil escrever assim, mais me angustio em pensar que não estou escrevendo para nenhuma pessoa específica. Você pode ler e gostar, ou pode não fazer diferença. Não tenho exatamente medo da sua opinião sobre ele. O fato é que ninguém está ai. Eu estou sozinha.
Tem uma banda tocando no meu quarto. Eu não estudo mais música. Meu pulso direito dói. Minha garganta, minhas costas doem. Porque dói não ser nada e se esforçar para ser alguma coisa. De fato, sou uma esponja. A banda me invade, e é bom, eu quero. A vizinha canta e me invade, e é ruim. As pessoas falam ao mesmo tempo, e eu deixo me invadir as vezes, as vezes demais. Eu espero entrar nelas também. Posso introduzir um assunto. Posso reescrever, mas talvez não dê vontade. Vou explicar porque não gosto de estudar. Me faz sentir que não sou suficiente ainda. Sim, sempre há o que se estudar. Estou dizendo suficiente para simplesmente ter direito de existir e ser deixada em paz. Não era esse o assunto. Era 'o olhar de algumas pessoas'.
Não sei o que você chama de paixão. Das coisas terríveis do mundo, uma delas é que eu nunca vou realmente entender como você se sente. É um milagre, eu repito em todo lugar, que duas pessoas se encontrem e conversem, aparentemente, sobre o mesmo assunto. Estou rindo agora porque me lembrei de uma ocasião em que duas amigas conversavam comigo e minha mãe. Eu estava quieta e esperava uma oportunidade de falar. Não sei se não me deram a oportunidade ou se não a reinvindiquei. Eu era jovem. Ri de novo, pois sou jovem. Bem, observava, e eram dois monólogos alternados. Elas queriam falar, ouvir a si mesmas e era só isso. Eu me senti usada. (Mas foi só como me senti, não foi o que elas fizeram comigo).
Ah sim, a paixão. O olhar de paixão de algumas pessoas. Foi assim, há dois anos me apaixonei, do tipo de perder a fome (perdi três quilos numa semana). Altos e baixos, mais baixos que altos foram. Mas esse não é o problema aqui agora. A pergunta é: qual é o olhar de paixão? São vários, porque paixões são várias. Mas esse tem um poder cativante que eu proporei mais tarde. Deve ser bem específico, pois se não, me apaixonaria mais vezes. Deixa eu dar mais contexto. Quando estou interessada em alguém, em geral também estou por várias outras pessoas. Mas nem todas as vezes eu chamo de paixão. E há dois anos atrás aprendi que paixão não é intrinsecamente boa, aliás dói bastante. Mas eu não tinha me apaixonado antes? Fui pegar o sarampo depois de adulta? Não, mas o contexto estava mais complexo. Fui pega desprevenida numa friagem boa. (É sarampo ou resfriado?)
Me apaixonei de novo. Por que, com essa pessoa diferente, que não me machucou, sinto-me mal como da última vez? Hoje reparei numa coincidência na maneira como me interessei por eles. Eles me viram antes que eu os visse e se interessaram por mim. Me conheceram já com aquele olhar. Eu me senti amada sem ter que me esforçar por isso. Lembra qual foi a primeira vez que isso me aconteceu? Desculpe pela psicanálise, mas provavelmente foi naquela época remota em que era bebê. Tudo bem, isso é apenas uma hipótese. Vou registrá-la aqui pela utilidade posterior. Se eu decidir que não faz sentido, venho aqui retificar. Aprendi a palavra retificar no 1984. Eu quero uma mãe que não vá embora, e misteriosamente, ela é um homem. Nota: nunca me apaixonei dessa maneira por uma mulher, isso está na minha lista de tarefas.
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Ai, gente. A Groselha. Coisa linda com a Vodka.
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Deixa eu voltar antes que eu esqueça. Não que isso já não tenha acontecido. Fui na cozinha e a Vodka falou por mim. Como é que a pessoa se prepara para representar ela mesma no cinema ou teatro? Me referia a Quero Ser John Malcovich. Ele disse que pensa nisso quanto a pessoa que canta, interpreta canções. Não é ela, mas também não deixa de ser. Disse que faria um mestrado pensando nisso. Possivelmente não mais o veja por isso desejo-lhe sorte.
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Voltei. E ontem no concerto, não queria que acabasse. Apesar de não poder sair das poses de pegar na mão e sentar comportado, por que acabar aquilo? Ai que está a obsessão.
Não quero definir muito. Mas não posso deixar de definir alguma coisa. Pelo bem do senso de realidade. (Posso alterar isso.)
A obsessão. Estava ali, no quarto, com um bando de pessoas, um copo e um cigarro ilegal. Não a obsessão, eu. E NINGUÉM ESTÁ AQUI PARA ME VER E TAMBÉM NÃO QUERO QUALQUER PESSOA. Penso em mais coisas, quero elaborar cada frase. É legal, sentir que te reconhecem. Por isso a psicanálise. Para falar de mim e ter a impressão que falo alguma coisa socialmente interessante. Pois é, estava no quarto e gostava das pessoas de lá. Não era eu, era a Vodka. E a Vodka teve uma ideia, mas eu não lembro. Pois é. Estava no quarto. E gostava das pessoas de lá. Quero elas todas no meu quarto, enquanto não estou, e esse é o Cigarro ilegal falando. As pessoas no meu quarto e eu não estou. O Cigarro esqueceu.
Sim! eu queria falar do .... . Posso, por favor, não ser uma pessoa razoável. Vou contar a estória
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Eu nunca fui e agora só consigo olhar as outras pessoas. Eu preciso de voz. Literalmente. Eu nem mais falo sobre isso.
Nossa, tá bom já. Penso em continuar porque agora acabou a tensão. Sei o que é só não sei porque. E lembrei do que ele disse. Não, ele não disse. Fui eu. Bem, ele disse que não era ele cantando, mas não deixava de ser. Então é isso. Vou ser o que não deixa de ser eu. Mas não eu. (Tenho um livro para ler. O Ambiente e os Processos de Maturação.) Vou conquistar o desejo de ter a voz linda, potente e nunca vou deixar de ser um nada. Mas não como se as duas coisas se anulassem. Porque há um desejo e ele é realizado. É um desejo sensual, sem nunca chegar a ser sexual. Não muda essencialmente nada mas acontece.
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Pronto, estou satisfeita, vou lá interagir. Mesmo com os olhos vermelhos.
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Ps. Vou amar minha mãe-homem e procurar uma fonoaudióloga.
domingo, 10 de fevereiro de 2013
Sol de Primavera
Gente, que preguiça.
Passei duas noites dormindo mal, pensando no que iria escrever assim que conseguisse editar e postar o vídeo. Como era de se esperar, não lembro-me mais.
É curioso como as palavras perdem o sabor com o tempo.
Bem, vou escrever sobre trivialidades enquanto encontro inspiração. Ontem passou Clube da Luta na TV de novo. Eu não havia percebido que as pessoas do clube continuaram gado mas com dono novo. Grande besteira isso. Mas enfim, é só ficção, vou tentar não ficar muito irritada.Entretanto, só de olhar pro Edward Norton eu fico boazinha. Não sei o que vi nele, até acho-o feio.
***
Os reais motivos que me levaram a querer escrever outro post: eu gravei um vídeo, depois de muito tempo matutando sobre. Vou escrever aqui para começar a manter um relatório do meu progresso, e os videos serão evidências.
Assistam o vídeo. Nem se assustem pois eu fiz tudo às pressas.
2011. Comecei a estudar canto lírico no Conservatório de Tatuí. No ano anterior estudei alguns meses com a Camila Senne. No Conservatório passei por 4 professoras em um semestre. Isso é uma bagunça quando você tem que apresentar peças para avaliação pois cada professora quer que você cante diferentes canções com diferentes abordagens. Cancelei a matrícula no meio do segundo semestre, a tempo de reprovar Álgebra II (na USP).
2012. Depois de desistir umas 3 vezes, em abril conheci a Mônica D'Avila. Acho que encontrei finalmente uma professora compatível com a minha maluquice. Pelo menos é o que parece pois já se passaram 10 meses. Ademais, entrei no CoralUSP no grupo Sul Fiato e pela primeira vez na minha vida meus ouvidos se abriram para a música coral.
Ainda em 2012 tive a oportunidade de conhecer alguns dos perigos da profissão de cantora. A catálise surgiu em uma noite em que eu acabei passando 4 horas conversando com alguns amigos depois de duas horas de ensaio com o coral. Desse dia em diante treinar, falar ou ensaiar tornaram-se suplício. Desde então (não desde então, desde antes, mas como eu disse, foi uma catálise) tenho me sentido bastante deprimida. Acho que poucas pessoas sabiam o quanto e por quanto tempo eu desejo ser bem sucedida no canto e quanto tem sido frustrante a minha trajetória. A Mônica viu um pouco disso quando, depois de ela me perguntar durante uma aula "Afinal, há quanto tempo você estuda? Como pode esperar tanto depois de alguns meses apenas?" eu comecei a chorar. Ela não sabe que aquela não foi a primeira vez que ela me fez chorar.
Então no meio de questões emocionais delicadas para mim, de repente eu estava (estou) impossibilitada de sequer estudar propriamente. Por quê?
De repente o texto virou um desabafo. Eu caminho no muro entre o formal e o piegas. Não consigo me identificar com alguma coisa sem a impressão de estar copiando. Eu quero criar o novo indizível. Eu quero ter uma cara e uma forma. Eu quero saber como eu quero.
Estou muito velha para essas coisas? Não, não.
2013. Planos ou quasiplanos. (Hi!, pensei em axiomas de quasiplano - alguém tem alguma sugestão?)
- Encontrar uma fonoaudióloga que cobre pouco!
- Interiorizar o conceito de apoio.
- Dar "corpo" a minha voz.
- Aguentar um treino mais longo.
- Encontrar uma banda que me aceite no backing vocal.
Fiquei cansada. Até escreveria mais, mas tenho vergonha de me expor. Porém, tenho feito umas coisinhas assanhadas ultimamente nesse sentido.
Não quero mais pensar nisso.
Passei duas noites dormindo mal, pensando no que iria escrever assim que conseguisse editar e postar o vídeo. Como era de se esperar, não lembro-me mais.
É curioso como as palavras perdem o sabor com o tempo.
Bem, vou escrever sobre trivialidades enquanto encontro inspiração. Ontem passou Clube da Luta na TV de novo. Eu não havia percebido que as pessoas do clube continuaram gado mas com dono novo. Grande besteira isso. Mas enfim, é só ficção, vou tentar não ficar muito irritada.Entretanto, só de olhar pro Edward Norton eu fico boazinha. Não sei o que vi nele, até acho-o feio.
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Os reais motivos que me levaram a querer escrever outro post: eu gravei um vídeo, depois de muito tempo matutando sobre. Vou escrever aqui para começar a manter um relatório do meu progresso, e os videos serão evidências.
Assistam o vídeo. Nem se assustem pois eu fiz tudo às pressas.
2011. Comecei a estudar canto lírico no Conservatório de Tatuí. No ano anterior estudei alguns meses com a Camila Senne. No Conservatório passei por 4 professoras em um semestre. Isso é uma bagunça quando você tem que apresentar peças para avaliação pois cada professora quer que você cante diferentes canções com diferentes abordagens. Cancelei a matrícula no meio do segundo semestre, a tempo de reprovar Álgebra II (na USP).
2012. Depois de desistir umas 3 vezes, em abril conheci a Mônica D'Avila. Acho que encontrei finalmente uma professora compatível com a minha maluquice. Pelo menos é o que parece pois já se passaram 10 meses. Ademais, entrei no CoralUSP no grupo Sul Fiato e pela primeira vez na minha vida meus ouvidos se abriram para a música coral.
Ainda em 2012 tive a oportunidade de conhecer alguns dos perigos da profissão de cantora. A catálise surgiu em uma noite em que eu acabei passando 4 horas conversando com alguns amigos depois de duas horas de ensaio com o coral. Desse dia em diante treinar, falar ou ensaiar tornaram-se suplício. Desde então (não desde então, desde antes, mas como eu disse, foi uma catálise) tenho me sentido bastante deprimida. Acho que poucas pessoas sabiam o quanto e por quanto tempo eu desejo ser bem sucedida no canto e quanto tem sido frustrante a minha trajetória. A Mônica viu um pouco disso quando, depois de ela me perguntar durante uma aula "Afinal, há quanto tempo você estuda? Como pode esperar tanto depois de alguns meses apenas?" eu comecei a chorar. Ela não sabe que aquela não foi a primeira vez que ela me fez chorar.
Então no meio de questões emocionais delicadas para mim, de repente eu estava (estou) impossibilitada de sequer estudar propriamente. Por quê?
De repente o texto virou um desabafo. Eu caminho no muro entre o formal e o piegas. Não consigo me identificar com alguma coisa sem a impressão de estar copiando. Eu quero criar o novo indizível. Eu quero ter uma cara e uma forma. Eu quero saber como eu quero.
Estou muito velha para essas coisas? Não, não.
2013. Planos ou quasiplanos. (Hi!, pensei em axiomas de quasiplano - alguém tem alguma sugestão?)
- Encontrar uma fonoaudióloga que cobre pouco!
- Interiorizar o conceito de apoio.
- Dar "corpo" a minha voz.
- Aguentar um treino mais longo.
- Encontrar uma banda que me aceite no backing vocal.
Fiquei cansada. Até escreveria mais, mas tenho vergonha de me expor. Porém, tenho feito umas coisinhas assanhadas ultimamente nesse sentido.
Não quero mais pensar nisso.
segunda-feira, 23 de maio de 2011
Aprendizagem vocal II
Vamos ver se um dia torno este blog inteiramente dedicado ao mais secreto instrumento musical. (Vamos antes ver se eu assimilo o hábito de escrever nele!)
Hoje eu vou postar trechos de um texto contido no livro "TRABALHANDO A VOZ", organizado por Léslie Piccolotto Ferreira, que achei na biblioteca da ECA-USP. Alias, lá tem livros maravilhosos nessa área, só que são um tanto escassos.
O texto é da professora Regina Maria Freire, e conta um relato incrível sobre umas de suas experiencias no setor de Fonoaudiologia da Santa Casa de Misericódia.
ATRASO DE MUDA VOCAL: FENÔMENO DA PUBERDADE?
[...]
[Entre os problemas de voz], o que mais surpreende o profissional é o chamado "atraso de muda vocal ou muda vocal incompleta".
Enquanto as "disfonias" nos remetem à dicotomia origem orgânica versus funcional, avaliação objetiva versus subjetiva, indicação cirúrgica versus fonoaudiológica, os atrasos de muda vocal primam pela unicidade.
Caracterizada pela manutenção do pradrão vocal infantil contíguo a um exame laringoscópico normal, a muda vocal incompleta é observada usualmente em jovens do sexo masculino.
Nestes, as mudanças hormonais específicas da puberdade manifestam-se na voz de forma mais incisiva, o que somando-se à crise de identidade própria da adolescência contribui para o aparecimento do quadro.
[...]
Os sujeitos que apresentam atraso de muda vocal são indivíduos preocupados com os reflexos da voz em suas relações sociais e profissionais, geralmente entre idades de 15 e 22 anos.
À avaliação, apenas a altura encontra-se alterada, apresentando-se ou sistematicamente mais aguda que o esperado ou então instável, com momentos de agudização alternados com agravamento. O timbre permanece claro e o volume normal. A respiração e a coordenação pneumofonoarticulátória também nao apresentam alterações. Pode-se observar aumento de tensão a nível cervical, gerado pelo esforço para a manutenção da laringe alta.
[...]
O processo terapêutico é rápido e bem-sucedido, em função da inexistência de impedimento orgânico à produção da voz normal. Vários procedimentos terapêuticos podem ser utilizados, mas há um único objetivo a ser atingido: o abaixamento da laringe com o consequente agravamento da voz.
A simplicidade do diagnóstico somada à plasticidade vocal destes jovens não torna a terapia interessante de ser descrita, a menos que o paciente em questão não seja um jovem.
Passo a descrever o processo terapêutico de um caso típico de atraso de muda vocal, cujo interesse maior está na idade do paciente: 56 anos.
Este paciente, que chamarei de R., procurou sem sucesso um tratamento para a voz. Todos os otorrinos que o examinaram, e não foram poucos, ao encontrarem uma laringe normal em paciente de terceira idade, jamais poderiam imaginar que se defrontavem com um atraso de muda vocal, quadro característico da adolescência.
[...]
Embora tenha imediatamente identificado o quadro de que R. era portador, não acreditei inicialmente nas suas possibilidades de desenvolver uma nova voz aos 56 anos de idade!
[...]
As sessões foram realizadas duas vezes por semana e tiveram início no dia 26 de maio e término no dia 1º de setembro, após 14 sessões de terapia.
Detalho a seguir, o trabalho que foi desenvolvido em cada uma das sessões que compuseram o tratamento.
1ª sessão - 26/5 - Mostro a R. que todos temos possibilidade de emitir sons agudos e graves. Emito a vogal /u/ de forma bem agravada e solicito-lhe que faça o mesmo. Aṕos algumas tentativas, consegue a emissão desejada.
2ª sessão - 31/5 - Solicito a emissão das vogais isoladas, sempre com a voz agravada. A seguir trabalhamos com a emissão de vogais combinadas, de vocábulos monossílabos, dissílabos e trissílabos. R. conversa comigo com sua voz habitual, e usa a voz agravada somente quando solicitado. Sua "nova voz" é um tom mais grave que o adequado, não se mantendo até o final da emissão, ou seja, geralmente a sílaba ou a vogal final é emitida na voz habitual.
3ª sessão - 2/6 - Emissão prolongada de vogais isoladas. Emissão de vocábulos. Aparecimento de pigarro decorrente da nova posião das cordas vocais. Introdução do relaxamento específico de Jacobson, com o objetivo não só de diminuir a tensão cervical habitual, como também a tensão introduzida com o uso da "nova voz".
[...]
6ª sessão - 16/6 - Além dos exercícios habituais, introduzo a leitura de textos. Intermediando a leitura, nosso diálogo é feito já com a "nova voz", embora esta ainda seja instável.
[...]
9ª sessão - 28/6 - R. refere que após a sessão de quinta-feira passou a usar somente a "nova voz": na loja, na rua, em casa, com os parentes.
Na 6ª-feira, como sentisse muita dor na laringe e cansaço, voltou a falar com a "antiga voz" o dia todo. À noite usou a "nova voz" para falar com o sobrinho. No sábado, continuou usando a "antiga voz". À tarde, conversou com a sobrinha usando a "nova voz". Sentiu muito cansaço, fez relaxamento e dormiu bem. No domingo, foi à casa do irmão e começou falando com a "voz antiga", passando depois a conversar com a "nova voz". Parou de usá-la durante o almoço e depois conversou com outros familiares com a "nova voz". Todos lhe deram apoio. Misturava as vozes o tempo todo.
Este relato foi todo realizado com R. usando sua "nova voz". Continuamos com os exercícios.
[...]
11ª sessão - 7/7 - R. relata estar usando somente a "nova voz". No entanto, refere outros sintomas paralelos ao uso desta "nova voz". Sente cansaço geral, rouquidão, falta de ar, instabilidade vocal.
Explico-lhe que isto é normal, pois está usando uma nova forma de falar que modifica a sua imagem anterior de indivíduo. É o período de adaptação. Recomendo relaxamento em casa e persistência no uso da "nova voz".
14ª sessão - 1/9 - R. relata estar ótimo. Sua voz é clara e adequada a seu tipo físico. Não apresenta sintomas paralelos. O pigarro desapareceu. Está confiante e seguro de si. Não existe mais uma "voz antiga" e uma "nova voz". Alta.
Meu procedimento ao trabalhar com este caso foi idêntico ao utilizado habitualmente nos quadros de atraso de muda vocal. Resumindo: não utilizei nenhuma manobra manual (tal como manipulação da laringe) para que R. produzisse o tom adequado. Demonstrando-lhe que eu própria podia falar com voz mais grave e solicitando-lhe a imitação da minha voz, obtive a sua emissão. Em seguida foi só expandir a vocalização até chegar ao diálogo.
O maior desafio foi o período de integração da nova voz. Por toda sua vida, R. se conhecia e e ficou conhecido como portador de uma voz agudizada e até feminina. A contribuição espontânea de amigos e familiares que o incentivaram no uso da nova voz e a sua vontade de superar obstáculos permitiram a construção de um novo padrão vocal, cuja influência em sua vida pode ser sentida nas palavras que R. fez questão de deixar gravadas no dia de sua alta:
"3ª -feira, 28 de junho, foi um dia marcante em minha vida, foi o dia da minha alegria e da minha felicidade ao adquirir esta nova voz. Quero deixar gravado para a sra. d. Regina o meu eterno respeito, a minha eterna gratidão, pelo que a sra. fez por mim, com paciência, dedicação e bondade. O meu muito obrigado e meu Deus lhe pague."
Até hoje mantenho contato com R., exemplo vivo da plasticidade vocal do Homem e da impôrtancia da Fonoaudiologia no contexto social.
__________________
Hoje eu vou postar trechos de um texto contido no livro "TRABALHANDO A VOZ", organizado por Léslie Piccolotto Ferreira, que achei na biblioteca da ECA-USP. Alias, lá tem livros maravilhosos nessa área, só que são um tanto escassos.
O texto é da professora Regina Maria Freire, e conta um relato incrível sobre umas de suas experiencias no setor de Fonoaudiologia da Santa Casa de Misericódia.
ATRASO DE MUDA VOCAL: FENÔMENO DA PUBERDADE?
[...]
[Entre os problemas de voz], o que mais surpreende o profissional é o chamado "atraso de muda vocal ou muda vocal incompleta".
Enquanto as "disfonias" nos remetem à dicotomia origem orgânica versus funcional, avaliação objetiva versus subjetiva, indicação cirúrgica versus fonoaudiológica, os atrasos de muda vocal primam pela unicidade.
Caracterizada pela manutenção do pradrão vocal infantil contíguo a um exame laringoscópico normal, a muda vocal incompleta é observada usualmente em jovens do sexo masculino.
Nestes, as mudanças hormonais específicas da puberdade manifestam-se na voz de forma mais incisiva, o que somando-se à crise de identidade própria da adolescência contribui para o aparecimento do quadro.
[...]
Os sujeitos que apresentam atraso de muda vocal são indivíduos preocupados com os reflexos da voz em suas relações sociais e profissionais, geralmente entre idades de 15 e 22 anos.
À avaliação, apenas a altura encontra-se alterada, apresentando-se ou sistematicamente mais aguda que o esperado ou então instável, com momentos de agudização alternados com agravamento. O timbre permanece claro e o volume normal. A respiração e a coordenação pneumofonoarticulátória também nao apresentam alterações. Pode-se observar aumento de tensão a nível cervical, gerado pelo esforço para a manutenção da laringe alta.
[...]
O processo terapêutico é rápido e bem-sucedido, em função da inexistência de impedimento orgânico à produção da voz normal. Vários procedimentos terapêuticos podem ser utilizados, mas há um único objetivo a ser atingido: o abaixamento da laringe com o consequente agravamento da voz.
A simplicidade do diagnóstico somada à plasticidade vocal destes jovens não torna a terapia interessante de ser descrita, a menos que o paciente em questão não seja um jovem.
Passo a descrever o processo terapêutico de um caso típico de atraso de muda vocal, cujo interesse maior está na idade do paciente: 56 anos.
Este paciente, que chamarei de R., procurou sem sucesso um tratamento para a voz. Todos os otorrinos que o examinaram, e não foram poucos, ao encontrarem uma laringe normal em paciente de terceira idade, jamais poderiam imaginar que se defrontavem com um atraso de muda vocal, quadro característico da adolescência.
[...]
Embora tenha imediatamente identificado o quadro de que R. era portador, não acreditei inicialmente nas suas possibilidades de desenvolver uma nova voz aos 56 anos de idade!
[...]
As sessões foram realizadas duas vezes por semana e tiveram início no dia 26 de maio e término no dia 1º de setembro, após 14 sessões de terapia.
Detalho a seguir, o trabalho que foi desenvolvido em cada uma das sessões que compuseram o tratamento.
1ª sessão - 26/5 - Mostro a R. que todos temos possibilidade de emitir sons agudos e graves. Emito a vogal /u/ de forma bem agravada e solicito-lhe que faça o mesmo. Aṕos algumas tentativas, consegue a emissão desejada.
2ª sessão - 31/5 - Solicito a emissão das vogais isoladas, sempre com a voz agravada. A seguir trabalhamos com a emissão de vogais combinadas, de vocábulos monossílabos, dissílabos e trissílabos. R. conversa comigo com sua voz habitual, e usa a voz agravada somente quando solicitado. Sua "nova voz" é um tom mais grave que o adequado, não se mantendo até o final da emissão, ou seja, geralmente a sílaba ou a vogal final é emitida na voz habitual.
3ª sessão - 2/6 - Emissão prolongada de vogais isoladas. Emissão de vocábulos. Aparecimento de pigarro decorrente da nova posião das cordas vocais. Introdução do relaxamento específico de Jacobson, com o objetivo não só de diminuir a tensão cervical habitual, como também a tensão introduzida com o uso da "nova voz".
[...]
6ª sessão - 16/6 - Além dos exercícios habituais, introduzo a leitura de textos. Intermediando a leitura, nosso diálogo é feito já com a "nova voz", embora esta ainda seja instável.
[...]
9ª sessão - 28/6 - R. refere que após a sessão de quinta-feira passou a usar somente a "nova voz": na loja, na rua, em casa, com os parentes.
Na 6ª-feira, como sentisse muita dor na laringe e cansaço, voltou a falar com a "antiga voz" o dia todo. À noite usou a "nova voz" para falar com o sobrinho. No sábado, continuou usando a "antiga voz". À tarde, conversou com a sobrinha usando a "nova voz". Sentiu muito cansaço, fez relaxamento e dormiu bem. No domingo, foi à casa do irmão e começou falando com a "voz antiga", passando depois a conversar com a "nova voz". Parou de usá-la durante o almoço e depois conversou com outros familiares com a "nova voz". Todos lhe deram apoio. Misturava as vozes o tempo todo.
Este relato foi todo realizado com R. usando sua "nova voz". Continuamos com os exercícios.
[...]
11ª sessão - 7/7 - R. relata estar usando somente a "nova voz". No entanto, refere outros sintomas paralelos ao uso desta "nova voz". Sente cansaço geral, rouquidão, falta de ar, instabilidade vocal.
Explico-lhe que isto é normal, pois está usando uma nova forma de falar que modifica a sua imagem anterior de indivíduo. É o período de adaptação. Recomendo relaxamento em casa e persistência no uso da "nova voz".
14ª sessão - 1/9 - R. relata estar ótimo. Sua voz é clara e adequada a seu tipo físico. Não apresenta sintomas paralelos. O pigarro desapareceu. Está confiante e seguro de si. Não existe mais uma "voz antiga" e uma "nova voz". Alta.
Meu procedimento ao trabalhar com este caso foi idêntico ao utilizado habitualmente nos quadros de atraso de muda vocal. Resumindo: não utilizei nenhuma manobra manual (tal como manipulação da laringe) para que R. produzisse o tom adequado. Demonstrando-lhe que eu própria podia falar com voz mais grave e solicitando-lhe a imitação da minha voz, obtive a sua emissão. Em seguida foi só expandir a vocalização até chegar ao diálogo.
O maior desafio foi o período de integração da nova voz. Por toda sua vida, R. se conhecia e e ficou conhecido como portador de uma voz agudizada e até feminina. A contribuição espontânea de amigos e familiares que o incentivaram no uso da nova voz e a sua vontade de superar obstáculos permitiram a construção de um novo padrão vocal, cuja influência em sua vida pode ser sentida nas palavras que R. fez questão de deixar gravadas no dia de sua alta:
"3ª -feira, 28 de junho, foi um dia marcante em minha vida, foi o dia da minha alegria e da minha felicidade ao adquirir esta nova voz. Quero deixar gravado para a sra. d. Regina o meu eterno respeito, a minha eterna gratidão, pelo que a sra. fez por mim, com paciência, dedicação e bondade. O meu muito obrigado e meu Deus lhe pague."
Até hoje mantenho contato com R., exemplo vivo da plasticidade vocal do Homem e da impôrtancia da Fonoaudiologia no contexto social.
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segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
Aprendizagem vocal
Meu teclado nao funciona. Por que? Porque sou acomodada...
Esse comodismo me impediu de escrever esse texto há meses, literalmente meses. E o efeito é que nao escreverei com o mesmo gosto que teria escrito antes, quando a idéia estava fresca num galho da minha mente.
Um amigo me pediu para falar sobre técnica vocal, mas desde o princípio devo dizer desculpa, apenas ler isto nao vai mudar nada. Outra coisa, para os estudados que passarem por aqui:
ESTE TEXTO É PSEUDO-BASEADO EM TEORIA. PREPARE-SE PARA LER BESTEIRAS!
Mas por favor, assim que detectá-las, me avise! Qual é a utilidade de um texto se nao aprende-se nada escrevendo-o?
O dia que esse amigo fez-me o pedido (pela qual-ésima vez?) coincidiu com a época que me professor de Física decidiu falar sobre oscilaçoes. Aliás, naquele dia iria um substituto, e eu apenas fui a aula porque pensei que haveria lista de chamada, afinal, meio semestre havia passado e eu nao apredera mais do que já sabia do Ensino Médio.
O substituto era simpático mas falava baixo e nao raramente falava sozinho. E aquelas equações diferenciais faziam cócegas muito superficiais no meu cérebro. Preciso de café. Pouco mais de uma hora falando de senos, exponenciais, molas e discos girando em fluídos, freios, amortecedores e o escambal.
Muita vontade de perguntar sobre colunas de ar - nao perguntei.
Nao colocarei (agora) as equações aqui, pois estou de férias e em outro mundo, pórem uma breve explicaçao que todos podem entender.
Imagine uma mola, um bloco no chão preso à mola, voce puxa o bloco e o solta. Não.
Imagine um balanço, uma menininha sentada nele, o ar e você. Voce empurra a menina uma vez. O balanço balança(!), balança... balança e para. Por que ele para? Por simplicidade, pela resistencia do ar.
Bem, voce resolve entao balançá-la periodicamente, para que a brincadeira nao seja tao breve. Ela vaai e voolta, voce empurra, ela vaai e volta. Empurrando na frequencia certa, ela irá mais e mais alto (até um certo limite né?). Empurrando em outras frequencias, que nao combinem com o movimento do balanço, perceberá que aquele ficará estranho. Isso é muito intuitivo, concorda?
O que acontece é que existem (simplificadamente) três forças atuando aí: o Peso da menina, a Resistencia do ar, e a Força que voce aplica.
***
Já pegou um papel de bala, esticou, e soprou para fazer aquele barulhinho fiuuu?
É isso que acontece com as cordas vocais quando falamos ou cantamos.
Alias, já cantou "dentro" de uma garrafa? Percebeu como o som se altera? Agradeça pela sua cabeça oca, sua caixa de ressonancia natural.
***
Voltando a aula daquele dia, o professor seguiu manipulando umas equações e tcharan:
Ressonância - quando um sistema entra em ressonância, significa que atingiu sua amplitude máxima. (O mais alto que a menininha do balanço pode chegar sem cair, o volume máximo que seu corpo pode dar a sua voz, para que ela encha a sala daquele auditório - sem dor de garganta!)
Coisas sobre o estado de ressonância:
1 - "A amplitude de um sistema é MÁXIMA, quando a resistencia é nula."
2 - "Quando em estado de ressonância, o sistema precisa de POTÊNCIA MAXIMA."
Link para um texto mais abrangente sobre ressonância.
Sim, ao que parece, ressonância é um nirvana para os cantores! =)
Traduzindo as coisas acima: nao pense em descansar, cantar é esforço, mas tem que ser aplicado corretamente, afinal o ar precisa passar pela sua garganta antes de ser amplificado. Se seu pescoço está tenso, se contrai e fecha a passagem de ar, mais esforço errôneo, mais contração, mais difícil a passagem do ar. Agora está doendo né?
Bem, vencida a primeira barreira, o som viaja loucamente pela sua boca e é amortecido e quando resolve sair, já perdeu muita energia. (Failure again) Imagine entao que há um espelho no palato (céu da boca) que irá refletir todos os feixes de luz sonora direto para os seus lábios e de lá para todo o universo! (Tá, viajei).
Na pratica isso pode parecer nada óbvio. E mesmo a ciência não tem respostas satisfatórias para explicar precisamente os mecanismos da fonação. Por isso, na maior parte do tempo o cantor estuda priorizando as sensações.
Em breve, devido a necessidade de entregar um trabalho decente na escola, postarei um texto bem mais preciso. Então, obrigada por ter acompanhado até aqui e espere a próxima!
Esse comodismo me impediu de escrever esse texto há meses, literalmente meses. E o efeito é que nao escreverei com o mesmo gosto que teria escrito antes, quando a idéia estava fresca num galho da minha mente.
Um amigo me pediu para falar sobre técnica vocal, mas desde o princípio devo dizer desculpa, apenas ler isto nao vai mudar nada. Outra coisa, para os estudados que passarem por aqui:
ESTE TEXTO É PSEUDO-BASEADO EM TEORIA. PREPARE-SE PARA LER BESTEIRAS!
Mas por favor, assim que detectá-las, me avise! Qual é a utilidade de um texto se nao aprende-se nada escrevendo-o?
O dia que esse amigo fez-me o pedido (pela qual-ésima vez?) coincidiu com a época que me professor de Física decidiu falar sobre oscilaçoes. Aliás, naquele dia iria um substituto, e eu apenas fui a aula porque pensei que haveria lista de chamada, afinal, meio semestre havia passado e eu nao apredera mais do que já sabia do Ensino Médio.
O substituto era simpático mas falava baixo e nao raramente falava sozinho. E aquelas equações diferenciais faziam cócegas muito superficiais no meu cérebro. Preciso de café. Pouco mais de uma hora falando de senos, exponenciais, molas e discos girando em fluídos, freios, amortecedores e o escambal.
Muita vontade de perguntar sobre colunas de ar - nao perguntei.
Nao colocarei (agora) as equações aqui, pois estou de férias e em outro mundo, pórem uma breve explicaçao que todos podem entender.
Imagine uma mola, um bloco no chão preso à mola, voce puxa o bloco e o solta. Não.
Imagine um balanço, uma menininha sentada nele, o ar e você. Voce empurra a menina uma vez. O balanço balança(!), balança... balança e para. Por que ele para? Por simplicidade, pela resistencia do ar.
Bem, voce resolve entao balançá-la periodicamente, para que a brincadeira nao seja tao breve. Ela vaai e voolta, voce empurra, ela vaai e volta. Empurrando na frequencia certa, ela irá mais e mais alto (até um certo limite né?). Empurrando em outras frequencias, que nao combinem com o movimento do balanço, perceberá que aquele ficará estranho. Isso é muito intuitivo, concorda?
O que acontece é que existem (simplificadamente) três forças atuando aí: o Peso da menina, a Resistencia do ar, e a Força que voce aplica.
***
Já pegou um papel de bala, esticou, e soprou para fazer aquele barulhinho fiuuu?
É isso que acontece com as cordas vocais quando falamos ou cantamos.
Alias, já cantou "dentro" de uma garrafa? Percebeu como o som se altera? Agradeça pela sua cabeça oca, sua caixa de ressonancia natural.
***
Voltando a aula daquele dia, o professor seguiu manipulando umas equações e tcharan:
Ressonância - quando um sistema entra em ressonância, significa que atingiu sua amplitude máxima. (O mais alto que a menininha do balanço pode chegar sem cair, o volume máximo que seu corpo pode dar a sua voz, para que ela encha a sala daquele auditório - sem dor de garganta!)
Coisas sobre o estado de ressonância:
1 - "A amplitude de um sistema é MÁXIMA, quando a resistencia é nula."
2 - "Quando em estado de ressonância, o sistema precisa de POTÊNCIA MAXIMA."
Link para um texto mais abrangente sobre ressonância.
Sim, ao que parece, ressonância é um nirvana para os cantores! =)
Traduzindo as coisas acima: nao pense em descansar, cantar é esforço, mas tem que ser aplicado corretamente, afinal o ar precisa passar pela sua garganta antes de ser amplificado. Se seu pescoço está tenso, se contrai e fecha a passagem de ar, mais esforço errôneo, mais contração, mais difícil a passagem do ar. Agora está doendo né?
Bem, vencida a primeira barreira, o som viaja loucamente pela sua boca e é amortecido e quando resolve sair, já perdeu muita energia. (Failure again) Imagine entao que há um espelho no palato (céu da boca) que irá refletir todos os feixes de luz sonora direto para os seus lábios e de lá para todo o universo! (Tá, viajei).
Na pratica isso pode parecer nada óbvio. E mesmo a ciência não tem respostas satisfatórias para explicar precisamente os mecanismos da fonação. Por isso, na maior parte do tempo o cantor estuda priorizando as sensações.
Em breve, devido a necessidade de entregar um trabalho decente na escola, postarei um texto bem mais preciso. Então, obrigada por ter acompanhado até aqui e espere a próxima!
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